Creio que, com o tempo, merecemos que não haja governos [Borges]

Wellitania Oliveira

UMA BREVE VISITA AO GATO VISITADOR, de Carlos Alberto Machado, por Wellitania Oliveira

Vinda do outro lado do mar chegou a minhas mãos uma caixa cheia de livros. No meio dos livros “O Gato Visitador”, não um gato qualquer, mas o gato que acompanha o poeta Carlos Alberto Machado. Um gato atrevido, de ideias formadas e, ao mesmo tempo, submisso à pena do poeta.

A escritora Roseana Kligerman Murray disse certa vez que “Gatos são poemas ambulantes”, por não entender muito de gatos, não percebi, no momento, o significado desta frase, mas ao ler os poemas de Machado, tive uma clarividência do que ela podia representar.

Não quero aqui explicar a poética de Carlos Alberto Machado, da mesma forma que ele (o poeta) também não tem por que justificar sua criação. Quando muito, podemos sentar à mesa com os amigos e teorizar, ou revelar aspectos e intenções implícitos em seu processo criativo. Por isso, atrevo-me a tecer alguns comentários sobre o gato acompanhante do referido autor.

Minha primeira impressão se pauta ao apego ou caráter substantivo dos poemas, note-se como o poeta intitula e inicia seus versos: “O gato visitador”, “O homem”, “o artesão”, “a chuva”, “os musgos”, “o rapaz”, “o cavalo”, “um dia”, “ancoradouro”, “torre”… É obvio que todos esses nomes servem de referência para o tema que Machado propôs trabalhar em sua escrita, que desencadeou a metalinguagem literária.

Machado compõe uma poesia de dicção prosaica acompanhada de imagens concretas e pouca abstração, também explicitando, as metáforas que fazem parte do texto, “como palavras implodidas de um ventre-mudo / alinhadas nos veios do acaso / usou-se em corpos e viagens / e procurou o conhecimento / das formas inventadas” (p.08).

Sua escrita se movimenta livremente em direção a uma estrutura pouco convencional, dotada de um pragmatismo que reflete o desenvolvimento de uma poesia subjetiva com foco no poeta, ou na própria poesia. A forma como expõe o processo criativo, seduz o leitor a “viajar” com ele em seu devaneio, pois “esta é desde sempre a sua demanda / agora aferroada a uma luz nova / um sagrado inviolável / é bom que o gato visitador o saiba / cada jornada pode matar a seguinte / num feixe de sucessivas passagens / pequenas mortes daquele que escreve/ abolição / completude / queres que te acompanhe / pergunta o gato visitador” (p.07).

É compreensível que o poeta, ao pressentir a chegada do Gato visitador, se tenha colocado frente a frente com o passado e com fatos que marcaram sua existência e que, ainda, permanecem vivos em sua memória, os quais também lhe servem de pretexto para escrever. O poeta lembra que, “há muito tempo o artesão era um homem / simples habitado por um outro homem / e por uma criança”, mas depois de adquirir algum conhecimento, “renasceu depois / o homem / artesão / e assim é” (p.08).

Desta forma, defende um novo concepto de criação, uma criação temática, não formal, na qual o criador tem liberdade para compor o poema com o seu próprio vocabulário e estilo. Talvez o objetivo do poeta seja, unicamente, encontrar um caminho que o leve a novas descobertas, ou a superação do seu próprio estilo, por meio do reencontro consigo mesmo, “afinal é um artesão / e escreve” (p. 09).

É importante ressaltar que, nem sempre a escrita é prazerosa para quem faz da arte um ofício; em sempre as palavras são ternas e amorosas; nem sempre os pensamentos são solidários às mãos que tecem o texto; nem sempre os desejos se transformam em realidade. Por isso, em determinado momento, percebe-se o poeta irritado com sua prática, o tom de suas palavras mostra a inquietação e o desejo de mudar: “Já tinha decidido há muito abandonar esse expediente retórico / mas a uma recaída qualquer um está sujeito / afinal o que falhou aqui ou aqui está errado / é preciso voltar a dizer tudo de novo?” (p.22), mas como abandonar a poesia, se a poesia está em sua alma desde o início de sua existência?

A tendência de voltar à meninice, quando se alcança a maturidade, é inevitável aos poetas, é muito mais generalizada do que parece, e esta obsessão está enraizada em alguns com mais intensidade. Em relação a Machado, este pratica o exercício de criar uma dimensão arbitrária da própria realidade. Assim, “o homem é de novo menino e corre pelas ruas de basalto negro / e à noite recolhe-se no baldio com trapos e sucatas e raízes podres” (p.23). Para o ser poeta, o sonho, ou a realidade não é uma questão de forma, mas uma questão de conteúdo, de argumento. Por isso, o poeta está sempre regressando, seja a um tempo pretérito, seja a um tempo presente, “e é menino ainda quando acorda / abre muito os olhos / como se pudesse ver o futuro / mas não vê” (idem), o retorno à realidade é inevitável, como é inevitável o amor na vida de um poeta, certo de que “há-de voltar sempre à pele dessa mulher / tacto cheiro sabor luminosidade temperatura cor adormecimento” (p.21).

Ao evadir-se da realidade, o poeta mergulha no próprio sentimento, recupera memórias remotas e lembranças recentes, para lançar um olhar sobre si mesmo, e “o artesão pára a meio caminho e pede licença para chorar / chora e depois fica a meditar no que está antes e depois / das lágrimas que gastou e sobre as que no futuro gastarão por si”. Assim, “após muito meditar decide-se pelo não regresso aos enigmas” (p. 24), e uma aura de otimismo debruça-se sobre ele e se enche de coragem para ir até o final do sonho e da vida real.

Ao longo do texto, Machado dá continuidade ao que já conhecemos da sua escrita, confiante de que “o gato fingidor / perdão / visitador” estará sempre por perto, bem enraizado no seu âmago, consciente dos caminhos que ainda tem que trilhar com sua pena de sonho e realidade.

Finalmente, Machado consegue, com extraordinário mérito e sem muito esforço, o desvelo de conceber um texto singular “na companhia de oculto gato ouvidor o artesão / a tecer um texto raiado de onde se pode segurar ou perder / uma ponta / quem queira / eis o logro onde todos podem ter a ilusão de tecerem e serem / tecidos” (p.28).

Ao Poeta,

Saudações literárias

Wellitania Oliveira, crítica literária, Doutoranda em Ciências da Cultura pela UTAD.