Creio que, com o tempo, merecemos que não haja governos [Borges]

Urbano Bettencourt

Escrever é abrir caminho para a compreensão do mundo

«A escrita constitui um dos tópicos mais imediatamente identificáveis neste livro, sobretudo como experiência da morte, que já no poema de abertura os livros anunciam na sua arrumação (p. 9) e que depois se representa em ato no poema «o homem do boné preto» (p. 17), para, finalmente, encerrar o livro com uma indicação sobre a condição material da própria escrita/morte (p. 45). Escrever é abrir caminho para a compreensão do mundo e da sua precariedade, defrontar-se com a voragem do tempo e com as marcas da sua passagem, tudo isso no silêncio em que as palavras registam as imagens do mundo em definitivo mortas para o real concreto de que partem.

E aí tanto entram as palavras que refazem a memória de um momento perdido no fundo da infância como as que assinalam a proximidade de um tempo atravessado pelas histórias miúdas de um quotidiano sem transcendência nem heroísmos, episódios da esquina, das várias esquinas, da vida e de um bairro suposto, figuras extra-territorializadas que sobrevivem ao deslizar dos dias refazendo sonhos apenas vislumbrados para lá do abismo da incomunicação (veja-se o belíssimo poema «o homem que imagino ucraniano»). O registo coloquial, popular, da linguagem que ocorre nalguns poemas é, por outro lado, um modo de assinalar o discurso do outro, integrando-o na coloquialidade e fluência discursiva que é já um traço do próprio sujeito poético e institui um efeito de proximidade e de «realismo» que é um das marcas desta poesia na sua generalidade.»

Urbano Bettencourt (apresentação de UMA VIAGEM ROMÂNTICA A MOSCOVO na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, 3 de Novembro de 2012)

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