Creio que, com o tempo, merecemos que não haja governos [Borges]

Pedro Mexia

Uma memória de trapos, um amargo de vela na boca

Este livro de poemas de Carlos Alberto Machado apareceu nalgumas listas dos “melhores do ano” de 2003.  Apresentação de um poeta de um lirismo da banalidade e da corrosão.
Embora Carlos Alberto Machado (n. 1954) tenha sido um dos autores incluídos por Manuel de Freitas em Poetas sem Qualidades (2002), uma polémica antologia de tendência, facilmente verificamos muitas diferenças específicas face a outros poetas presentes nesse volume, facto a que não deve ser alheia a circunstância de o poeta pertencer a outra «geração». Para além de peças e outros escritos teatrais, Carlos Alberto Machado publicou quatro livros de poesia: Mundo de Aventuras (2000), Ventilador (2000), Mito (2001) e A Realidade Inclinada (2003), este na Averno, um projecto editorial que prolonga e sustenta a dita «tendência».
A realidade inclinada parece uma boa descrição da poética deste autor: é inequívoca uma presença da «realidade», numa estética que privilegia mais a «banalidade» que propriamente o «quotidiano». Mas esta realidade está, «inclinada». Desde logo, porque não existe uma realidade evidente, indiscutível, objectiva, mas apenas visões do mundo, e visões do mundo plasmadas – como na poesia – em palavras. Essas palavras tanto descem aos abismos da memória como se comprometem num imaginário bizarro ou mesmo escatológico, roçando o desespero, como essa louca que «mastiga um bilhete de eléctrico» e que abre este poemário de forma impressionante.
Manuel de Freitas, na referida antologia parcialíssima, escreve a propósito deste autor que nele a truculência, por vezes corrosiva, está associada a um profundo lirismo, que se manifesta por exemplo na rememoração da infância. Esta coincidência de opostos faz muito do interesse desta obra. Carlos Alberto Machado escreve, por exemplo, sobre «carapaus», um vocábulo que faria recuar outros poetas, mas também sobre os olhos da sua filha pequena. Isso não indicia a adopção de uma pose, mas sim a natural continuidade entre o sublime e o trivial, aliás gémeo de uma certa ética do desencanto que faz Carlos Alberto Machado um «poeta sem qualidades». Se existem algumas aproximações a universos mais ou menos abjeccionistas, e se, na intertextualidade, se alude a autores que representam várias noções de «marginalidade» (Herberto, Luiz Pacheco, Sebastião Alba), isso vem precisamente em abono daquilo que o poeta chama uma poesia «impura», essa associação do alto e do baixo que é, afinal, o retrato menos mentiroso que se pode tirar à «realidade».
O particular registo de «humor» de Carlos Alberto Machado nunca é inócuo, mas sempre de uma acidez poeticamente muito eficaz: «Primeiro comi a vela do quatro depois a do oito / depois lembrei-me de quando neste dia as minhas prendas / eram um par de peúgas e umas cuecas pirosas / compradas aos ciganos com o dinheiro tirado ao pão / agora já sei a poesia é isto uma memória de trapos / e um amargo de vela na boca» (pág. 53). O aniversário, motivo normal de celebração, torna-se assim um mínimo balanço melancólico. E daí, «melancolia» não será a palavra mais feliz para descrever as tonalidades destes poemas, que têm uma exigência e uma dureza que não se escuda em esteticismos.
Aqui toda a «felicidade» tem o seu reverso, e proporciona imagens de fracasso e desolação. O amor, por exemplo, pode ser um ocasional porto de abrigo, mas surge sobretudo como terreno de fins e recomeços, sofrimentos e indecisões: «A partir das oito deixo de te ver / e aguento a bexiga incontinente / é lá que se aloja o tempo de espera / o telemóvel queima-me o coração / lista de mensagens vazia o porvir / brisovent 250 ultra beta diskus os / alfas do destempero a doerem no peito / não mais descer a rua do arco / as ágoas livres agora lodosas / fim de tarde junto à igreja matricial / depois das oito quando o destino / cessa mais um caminho de mar / (também existe pecado do lado de cima do equador) / agora é só pôr as pernas do lado da cabeça e partir» (pág. 39). O fim mais definitivo – a morte da mãe – é outra das secções deste livro (bem ordenado em vários núcleos temáticos, embora talvez demasiado longo). Mais do que a simples elegia, os poemas sobre a mãe recuperam imagens e momentos da memória, tema sempre presente. O pólo mais positivo nestes textos é a filha, que só remete para claridades e fantasias, mas mesmo nisso há uma tristeza por contraste, face a todo o outro mundo, que se mantêm desconforme. Essa desconformidade é porém respalda por um lastro de solidariedades, cumplicidades e dedicatórias, algumas de cunho mais politizado. E por um fascínio pelo teatro, que se traduz, por exemplo, num poema final, que aproveita, de forma muito diversa, o verso longo tributário de Ruy Belo, embora mantendo a ausência de pontuação que sustenta toda a prosódia deste poeta.
Esse efeito «inclinado» que a ausência de pontuação provoca na «realidade» é patente em poemas tão evidentes e observacionais como este: «O número sessenta e dois da rua do general / taborda que me faz lembrar o da luta livre / da minha adolescência é assim que se nomeia / aquele período idiota das nossas vidas / o tal número como dizia fica quase em frente / de uma agência funerária cujas duas donas / moram no mesmo prédio de um sujeito que faz versos nas horas livres / um sujeito que como estas senhoras sempre enlutadas / cuida da morte e dos mortos com o mesmo zelo / (…) o sujeito do sessenta e dois passa noites em claro / a escrever à luz de velas escarlates a queimar incenso / a fazer o seu registo civil de mortos passados e futuros / num palimpsesto que apaga a marca d’água do papel / que já foi imaculado como os corpos antes de passarem / para o outro lado da rua que tem honras de general» (pág. 50). Ou, dito de um modo mais sucinto mas não menos definitivo: « (…) não posso regressar a onde nunca estive / isso é lá com o pessoa & companhia / a mim apenas me servem cerveja morta em copos molhados / e dizem-me que a próxima sairá melhor (…)» (pág. 18). Versos que definem de forma lapidar esta poética a meio caminho.
Pedro Mexia, Diário de Notícias, Sexta-Feira, 12 de Março de 2004 (sobre A Realidade Inclinada, Lisboa, Averno, 2003)

A Realidade Inclinada, Averno, 2003