Creio que, com o tempo, merecemos que não haja governos [Borges]

Manuel de Freitas [4]

Os acasos são o que são – e têm, por isso, um sentido enorme. Li os poemas de Carlos Alberto Machado depois de um penoso confronto com dois livros de autores tidos e garantidos como excelentíssimos poetas. Estava tudo certo, neles: as vírgulas, a intertextualidade, a flébil alusão culta, o sinuoso vocábulo que nas entrelinhas pede a comenda e o bravo! Faltava-lhes, no entanto, isso que eu não sei dizer: a poesia, um certo ”mal-estar nas entranhas que se chama angústia”. O livro de Carlos Alberto Machado era, obviamente, outra coisa. Assim que o comecei a ler, esqueci-me da literatura (o que, regra geral, é bom) e deixei-me invadir pelo “cheiro adocicado” das navalhas que o percorrem. Talvez esteja a mentir. Lembrei-me, de facto, de algumas páginas de Céline ou dos romances desenhados de Tardi (não por acaso, outro célineano). Chegou mesmo a ocorrer-me a expressão ”grosseria lírica” (encómio raro, nestes dias). De poetas – portugueses, vivos – não me lembrei de nenhum. Ainda bem, volto a dizer.

Manuel de Freitas, do Prefácio a Mito (Lisboa, Novembro de 2001, & etc)

Mito, Lisboa, & etc, 2001