Creio que, com o tempo, merecemos que não haja governos [Borges]

Manuel de Freitas [3]

Logo o poema inicial deste livro nos convence de que estamos perante uma voz discreta, avessa a programas, escolas e ao propósito talvez risível de mudar o mundo (nem sequer o seu, pessoal) (…) Mas é também evidente que a poesia de Carlos Alberto Machado não quer entrar muito depressa na noite escura dos cânones disponíveis. (…) Poder-se-á facilmente alegar que estamos perante uma “poesia menor”. Hipótese justa, desde que concedamos à expressão o veemente e depurado sentido com que a consagraram, entre outros, O’Neill, Armando Silva Carvalho ou, mais recentemente, Hélder Moura Pereira. (…) Não se pense, porém, que o coloquialismo quase provocatório de Carlos Alberto Machado corresponde a uma desatenção do zelo verbal a que qualquer poeta, por caminhos necessariamente sinuosos, deve obedecer. (…) Contudo, outras férteis indecisões caracterizam a escrita de Carlos Alberto Machado, fazendo-a oscilar entre o apontamento quotidiano e uma crua visão escatológica: “mas os outros não imaginam esse prazer / (conheço o prazer dos loucos / assim lhes chamam) e das crianças com o sujo / dos seus corpos entenda-se com o que dele podem extrair / das unhas da boca o chulé entre os dedos dos pés” (pág. 16). É no mínimo congruente que uma poesia que se recusa a voar demasiado alto (causa, aliás, de tantos Ícaros e ácaros) busque como serenidade possível a inexistência, um crepúsculo frio que se torna – por assim dizer – tangível, ao reconhecer que “o segredo é não existirmos / o sol tardio dos nossos corpos” (pág. 49). A verdade – uma “verdade” que o autor tem o mérito tardio e jocoso de nos relembrar – é que há menos bardos do que nos querem fazer crer. Saúde-se, portanto, a contundente imodéstia de um livro que se assume “repleto / de palavras amestradas / pra oferecer no Natal / ou isso ou umas peúgas”.

Manuel de Freitas, jornal Expresso / Cartaz, 8 de Setembro de 2001 (sobre Ventilador, Espinho, Elefente Editores, 2000)

Ventilador, 2000