Creio que, com o tempo, merecemos que não haja governos [Borges]

Manuel de Freitas [2]

Aquitanta, 2003

 

Talvez teatro, talvez poesia. Pouco importa. Aquitanta, breve ”monólogo teatral” de Carlos Alberto Machado, confronta-nos implacavelmente com esse estranho limite em que corpo(s) e palavra(s) se indistinguem no luto provisório de um palco. E, ainda que pareça demasiado ”verdadeiro”, é preciso dizê-lo: ”Não é possível um luto sem um corpo morto”. Morto, aqui, é o que não ama, bem como o que deixou de ser amado.
Recomecemos, até porque em cada corpo – e nem sempre bem – recomeça o mundo. Alguém, sozinho, nomeia tudo o que (nos) mata por ter sido, outrora, sinal intenso de vida, metonímia concreta do amor. E recorda ”um cheiro adocicado de incenso. Uma vela escarlate. Uma laranja refrescante ao fim da tarde. Tudo isto embrulhado em palavras”. Coisas comuns, perecíveis – tal como as palavras ou, mais precisamente, esse modo extremo de chegar ao outro, de inaugurar o seu corpo, a que nos habituamos a chamar poesia, teatro, literatura. Coisas de amor, em suma.
(…) O que é dito neste texto não poderia ter sido dito de outra maneira, noutra ”voz”, com outras palavras. Será essa (a havê-la) a única essência da literatura: uma arte do irrepetível, um excesso doravante perdoável.
(…) “O que é que está aqui a mais? Palavras?” Não creio, a não ser no que se refira a estas que agora escrevo. Prefiro reparar no que sempre está a menos, independentemente de lhe chamarmos vida, deus, amor ou outro nome qualquer, gasto e imprescindível. E é por isso, também, que gosto de poder ouvir – sem desvios filosofantes, na crueza dizível do afecto – que ”é mesmo assim a merda da vida”. Até quando, em jeito de final, se insinua um (im)possível recomeço: ”Prepara-me a toalha, amor”. Talvez poesia, talvez teatro. Não importa sabê-lo. Deixai correr, ardentemente, estas lágrimas amantes. A fria sombra do lume.
Manuel de Freitas, do Prefácio a Aquitanta (Lisboa, Fevereiro de 2003, Edição de Autor)