Creio que, com o tempo, merecemos que não haja governos [Borges]

Manuel de Freitas [1]

Carlos Alberto Machado: “Chega agora a minha vez. / Nada a dizer / somente / duas ou três / palavras / que falam de uma luz / pequenina”. Eis uma proposta mínima, minuciosa e não poucas vezes contundente. Na sua força e despojamento, a “luz pequenina” de Carlos Alberto Machado deixava-se já sentir em Mundo de Aventuras. Contudo, a plena afirmação poética dar-se-á no livro seguinte, Ventilador, onde se recolhem “coisas soltas como o dia”. O quotidiano – “real” ou inventado ou ambas as coisas – apresenta-se frívolo, sem saída, mas sabiamente doseado pelos vocábulos mais comuns: “não te oiço não deixes o gaz merda / já está podes recomeçar tudo sim / pouco a pouco a sombra”. A “impureza”, nestes textos, atinge um elevado conseguimento poético, que passará despercebido a quem não gostar de ver a literatura tratada por “tu”, remendada como as meias com que se chegou a casa depois de mais um dia. De facto, Ventilador revela-se um conjunto admiravelmente coeso de “palavras amestradas / pra oferecer no Natal / ou isso ou umas peúgas”. O tom menor, sublinhado pela predominância de minúsculas, é evidente num poeta que, tendo certamente lido Ruy Belo ou Baudelaire, sabe ser de si próprio o domador e a fera. Mito constitui um outro exemplo fundamental da truculência desta poesia, frequentemente vizinha de um humor tão corrosivo quanto desesperado. Esse livro, porém, deve ser lido como o todo que deveras é. Amputá-lo seria diminuí-lo, desrespeitar um fôlego lírico que, sem recear a escatologia e a implacáve1 rememoração da infância, bastaria para tornar o seu autor um caso isolado no horizonte algo fastidioso da recente poesia portuguesa. Eis a prova notável de que, em tempos tão assépticos, existe um “wild side” em que sangue e palavras se confundem, retoricamente, é claro, por “universos / de vidro à deriva”.

Manuel de Freitas, em Poetas sem Qualidades, sobre Mundo de Aventuras, Ventilador e Mito (Lisboa, Averno, 2002: 113-114)

Mundo de Aventuras, 2000

Mito, Lisboa, & etc, 2001