Creio que, com o tempo, merecemos que não haja governos [Borges]

Luis Maffei [2]

Portanto, é neste lugar difícil entre o real circundante e o intertextual que se localiza o sotaque de Machado, que logra, também a partir de encontros surpreendentes como o da conta de luz com a luz vitalista herdeira dum Campos ou dum Herberto Helder, desvendar o que há de permanente no precário; acerca desta tensão, afirma António Guerreiro (2003, p. 17):

(…) quem acusa este tipo de poesia de não se afastar suficientemente do imediato, de se moldar pela banalidade da vida quotidiana, esquece-se muitas vezes que, neste caso, o golpe da magia poética, quando é conseguido, consiste precisamente em interromper aquilo que está diante dos nossos olhos, em provocar um acto de estranhamento que faz com que apareça como uma forma de experiência aquilo que estava escondido na repetição banal. Esta interrupção, que é um estado de excepção na regra da quotidianidade, revela as asperezas que o hábito tinha alisado. Surge, assim, inequivocamente, o “golpe da magia poética”: do exercício que já não era tão quotidiano assim, a palavra de poesia toma o centro da cena e vai ser embalada pelos braços do cantor, comunicante não apenas de sua experiência, mas também de alguma coisa, poética, claro, que extrapola os prazos de validade de qualquer fim de mês. E é a poesia, por outro lado, que pode, mais do que nunca, a partir desta perspectiva des-qualificada, admitir-se, prática discursiva que é, insuficiente, mera prática discursiva, em suma; ainda Carlos Alberto Machado (2002, p. 25):

«Assinaste o teu nome

em papel sufocante

impressão bem à vista

xis escudos por página

um livro repleto

de palavras amestradas

pra oferecer no Natal

ou isso ou umas peúgas.»

Quem o autor das “palavras amestradas”, quem o tu? Talvez a própria voz que enuncia o poema, lugar de confissão de insuficiência, pois a realidade, no que possui de massacrante, afasta a poesia do próprio real. Desse modo, trazer a realidade para a poesia talvez seja o único modo possível, hoje em dia, de se realizar um tipo de matrimônio há muito desfeito, pois há muito o vate já não representa seu grupo, desde longa data o real, sobretudo no que tem de quotidiano, mostra-se inacessível à poesia, pois a ela hostil. Assim sendo, a re-união de poesia e realidade dá-se, tão-somente, se a primeira convidar a segunda, já que o contrário não ocorrerá. Este é, decerto, o salto que os Poetas sem qualidades propõe-se executar, pois “comunicam, em suma”, o que sugere um certo amestramento das “palavras”. Mas, para além da mera comunicação, uma angústia e um embalo: não deixa de ser “sufocante” o “papel” pois aquilo que surpreende tira o ar, aquilo que diz algo novo interrompe a respiração, um fluxo imperceptível de tão habitual.

Machado, Carlos Alberto (2002). “[Assinaste o teu nome]”, in Manuel de Freitas (ed.), Poetas sem qualidades, Lisboa, Averno. p. 25

Luís Maffei [Professor Adjunto de Literatura Portuguesa da UFF ], “Os poetas sem qualidades: em busca da contemporaneidade possível” , revista Texturas, ULBRA (Brasil) (sobre Poetas sem Qualidades, org. Manuel de Freitas, Lisboa, Averno, 2002)

Poetas sem qualidades, Averno, 2000