Creio que, com o tempo, merecemos que não haja governos [Borges]

Luis Maffei [1]

Ao poeta, portanto, interessa a “beleza”, que pode estar “nos sacos de lixo”. Já referi o fato de Carlos Alberto Machado estar num livro de nome poetas sem qualidades, em cujo prefácio Manuel de Freitas elege Magalhães como um dos poetas que efetivamente falam à contemporaneidade. No entanto, não se trata, em Machado, de “beleza”, mas de reciclagem: estamos em pleno século XXI. Que se recicla? Pouca coisa, mesmo porque “minhas dúvidas” equivalem a “minhas respostas”. Se assim, não existe diferença, e as perguntas serão respondidas com novas perguntas, num processo sem termo: as “páginas em branco” voltarão a ser “páginas em branco” após o preenchimento. Estará o poeta hodierno incapaz até mesmo do fingimento e do original fingere? Não há como grafar nada? E tem o sujeito “pena de quem” “encontrar” o “caderno” de volta ao “lixo” (ao mundo?), não tanto pelo “lixo”, mas porque o outro indivíduo poderá expressar as mesmas “dúvidas”, cujos termos serão as mesmas “respostas”: “por exemplo dor alegria distracção partilha dádiva”. Palavras-chave, eu disse. Mas talvez não sejam capazes de abrir muita coisa.

No poema seguinte de Talismã, outra palavra-chave, o único palíndromo de todo o texto: “xanax”. A construção: “tomas uma dose dupla de xanax e viras-te/ para o lado do esquecimento (…)” (Machado, 2004, p. 39). O livro já se encaminha ao final, que está na página seguinte, dois versos apenas: “Leva um pouco de mim/ eu fico”, e uma indicação paratextual, bem abaixo do poema, em fonte menor: “Lisboa, 13 de Dezembro de 2001 – 28 de Fevereiro de 2002” (Machado, 2004, p. 40). Um tempo está marcado, mas a cronologia não é tão importante, tampouco o inverno que teve lugar quando da composição do livro, muito menos uma passagem de ano. Importa é o “xanax” e o “esquecimento”, pois vêm ao caso a “dor” e a “distracção”. Em grande parte dos casos, toma-se “xanax” em virtude de alguma “dor”, já que nosso tempo é pouco capaz de lidar com essa sensação, ou sentimento, sem o auxílio de remédios industriais. A “alegria”, à primeira vista, é o “exemplo” mais distinto da “dor” no verso a que ambos comparecem. No entanto, a “distracção” pode revelar, em relação à “dor”, uma diferença, não sei se maior, mas talvez mais curiosa, já que “dor” e “alegria” são estados de concentração.

Penso isso com a ajuda de uma crônica de Clarice Lispector, “Por não estarem distraídos”: “Tudo porque (…) quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, (…), e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem distraídos” (Lispector, 1992, p. 9). Assim, a distração, no texto lispectoriano, relaciona-se com “ser”, e a concentração, ou a não distração, com perda, “fios” cortados, “dor”. Tomar “xanax” pode ser um modo de o indivíduo se perder de si, mas não é, decerto, o mais fundo: fica o sujeito no último poema do livro, mesmo que “uma parte” dele possa ser levada. É precisamente de um despedaçamento que diz o segundo dos poemas que a este texto interessam frontalmente, poema que antecede “[Achei no lixo um velho caderno de significados]” em Talismã:

«Hoje vou para o mercado velho expor o meu corpo em pedaços

cada um bem identificado por uma etiqueta com nome e valor

tenho esperança de realizar uma boa transacção há tanta coisa lá

para trocar pelos pedaços ainda em bom estado deste meu corpo

inteiro não tem muita utilidade mas assim a retalho é precioso

em particular a mão direita o crânio o sexo e o coração

oxalá ninguém queira comprar por atacado todos os pedaços

é que não sei onde guardei as instruções de montagem.»

(Machado, 2004, p. 37)

A cisão é terrível, e, claro, dolorosa: se “vou para o mercado velho expor o meu corpo em pedaços” é porque não sou “meu corpo”, mas outra coisa. Se as dores são físicas, e se o “corpo” se encontra “em pedaços”, algo doeu antes e ainda dói. Mas não é o “corpo” que está à venda, e sim cada um dos “pedaços”. Se eu pensar na ideia de “distracção” que encontro no outro poema, aqui ela chega a seu limite, pois não existe contração, nem concentração, mas dispersão máxima: as partes do corpo se separam, e o corpo despedaçado separa-se do sujeito que ainda diz “meu corpo”. Portanto, “dor alegria distracção partilha dádiva”, se dependem da existência de um sujeito que as pratique, tornam-se, logo, impraticáveis. Não dói mais? Ou seria a dor mais excruciante a que não se sente nem se pode fingir? Ou a “dor” escrita, que passa a “dor lida” (Pessoa, 1993, p. 104), encontra-se nesse poema entre a tortura e o desprezo, como pude ler no outro? Naquele, um “velho caderno de significados”; nesse, um “mercado velho”. Ambos velhos como a imemorial “pedra negra” de Talismã? A velhice como antiguidade, como um primitivismo poderoso? Talvez não, talvez a velhice como repetição de uma dor antiga, talvez a própria inexorabilidade dos “significados” e das relações.

Relações: “tomas uma dose dupla de xanax e viras-te/ para o lado do esquecimento (…)”. O tu, sobretudo, é o que me importa agora, pois me importa uma relação de troca, objetivo do dono do corpo ao “expor” no “mercado velho”. Não posso cogitar um comércio erótico, pois o corpo sequer existe mais como unidade potencializadora do encontro. Cogito, portanto, que o mundo das trocas econômicas em todos os níveis terá de permitir esse tipo de “transacção”, pois tudo pode estar à venda; por que seria diferente com os “pedaços” do “corpo”? Por que seria diferente com o “corpo em pedaços” que se expõe num poema? É claro que não existirá qualquer possibilidade de uma transcendência se manifestar: Talismã, ali, será apenas um nome. É claro também que me ocorre, diante de um “corpo” nessa situação, a poesia de Luís Miguel Nava, sobretudo em sua última fase. Por exemplo, “As trevas”, de Vulcão, último livro de Nava: “Começam-nos as trevas a romper/ a carne (…)// envolvem-nos as trevas/ os ossos, dir-se-ia/ que a própria morte/ nos serve aqui de pele, como a um morcego.” (Nava, 2002, p. 226).

Nava abre-me a porta para considerar uma espécie de morte no poema de Machado? Não sei, mas arrisco: há alguma morte num indivíduo que se separa de seu corpo. A óbvia diferença entre Nava e Machado é que não há “trevas” no poema mais recente, mas “mercado”. Ainda assim o sujeito é despedaçado, sua “carne” é rompida, seus ossos sombreados, não “como a um morcego”, mas talvez como a um objeto sem muita chance de morrer (contradigo-me, tudo bem), pois sem muita chance de vida. E que vida terá o discurso, o texto, os “significados” se a única ocorrência no poema que remete a palavra é a “etiqueta com nome e valor” que identifica “cada um” dos “pedaços do corpo” exposto? Claro está que partes de um corpo só terão valor num “mercado”, não “velho”, mas negro, num universo de tráfico de órgãos. Portanto, há uma morte entredita, já que órgãos só se traficam quando seus donos estão mortos. Por outro lado, não há morte, pois não há tráfico, a “transacção” não é negra.

A presença de coisas do mundo hodierno na poesia de Machado é bastante notável. Se falei agora em tráfico de órgãos, noutro momento falei em reciclagem, e dela volto a falar em virtude de poder lê-la também ao contrário do modo como a li. O “caderno” é recolocado no “lixo”, portanto não há reciclagem. Mas o mundo é interessado na reciclagem de lixo, prática ecologicamente correta, assim como em tráfico de órgãos, prática ética e politicamente incorreta. O vocábulo tráfico, aliás, que pode dizer apenas de comércio, costuma salientar a ilicitude. O verbo traficar encontra-se em outro poema de Talismã, o oitavo, cujos primeiros versos são: “Traficamos palavras na ausência dos corpos separados/ pelo pudor ainda necessário e pela memória da dor/ que noutros corpos sentimos quando todas as palavras falharam” (Machado, 2004, p. 16). A “memória da dor” como algo que dói no corpo, ou uma efetiva memória “só/ do corpo, e livre de outra crença” (Cruz, 2006a, p. 45).

CRUZ, Gastão.  A moeda do tempo. Lisboa: Assírio & Alvim, 2006a

NAVA, Luís Miguel. Poesia completa: 1979-1994. Lisboa: Dom Quixote, 2002

MACHADO, Carlos Alberto. Talismã. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004

Luís Maffei [Professor Adjunto de Literatura Portuguesa da UFF ], “O corpo não, mas o corpo, e como dói um talismã em Carlos Alberto Machado?” (sobre Talismã, Lisboa, Assírio & Alvim, 2004) 

Talismã, Assírio & Alvim, 2004