Creio que, com o tempo, merecemos que não haja governos [Borges]

Jorge Gomes Miranda

Como em certos ciclos de poemas dos ingleses Tony Harrison, Douglas Dunn e Ken Smith, por detrás de um discurso aparentemente apenas emotivo, expresso pelo trabalho de luto, memória e esconjuro que são os versos, há um propósito político: a narração das etapas da sua história pessoal em direcção a uma autenticidade.

No entanto, Carlos Alberto Machado nunca circunscreve o assumir do rosto a uma qualquer restrita leitura psicologista ou ética do seu passado pessoal; antes, a relação com a estrutura vocabular, frásica e discursiva impõe-se por si própria, independentemente das circunstâncias biográficas do autor, na esteira do entendimento defendido por Ruy Belo em Da Sinceridade em Poesia.

Outro dos principais méritos de Mito – que significa aqui a expressão poética e dramática de uma verdade escondida – é o de nos questionar de novo sobre o que é o poeta, a quem se dirige, e que linguagem há que esperar dele. Seguindo o caminho percorrido por Wordsworth e Ruy Belo, Carlos Alberto Machado é um homem que fala a outros homens, não temendo, inclusive, provocar comoção no leitor ao confessar um conjunto de experiências de perda e despossessão, mas também de pequenas alegrias que engrandecem e endividam pela vida fora.

Jorge Gomes Miranda, jornal Público / Suplemento Mil Folhas, 13 de Abril de 2002 (sobre Mito, Lisboa, & etc, 2001)

Mito, seguido de Palavras gravadas na calçada, Lisboa, & etc, 2001