Creio que, com o tempo, merecemos que não haja governos [Borges]

Inês Dias

Já conhecíamos Carlos Alberto Machado enquanto poeta do seu livro Mundo de Aventuras (Ataegina, 2000), mas Ventilador vem agora confirmar essas primeiras impressões (…). Trata-se, antes de mais, duma poesia feita do/no quotidiano (…) um inventário de “coisas soltas como o dia” (p. 39) ou de “imagens vindas dos dias”, para utilizar a expressão de Ruy Belo, um dos poetas de quem Carlos Alberto Machado nos parece mais próximo. Porém, se o primeiro livra nos falava dessas mesmas minudências mas representando um tempo de ilusões (em que os ratos assumiam o estatuto de guerreiros e a literatura ainda detinha o poder de nos manter acordados a sonhar), este novo livro corresponde a um tempo-pós-ilusões. (…).
Face a esse futuro literalmente posto em causa, esgotado ou precocemente reduzido às suas dimensões quotidianas, resta-lhe ainda tentar resistir pelo exercício da memória, que vai conseguindo resgatar objectos e gestos ao tempo. O que transforma a escrita, essa contabilidade da memória, numa espécie de crime, de guerrilha, de quase terrorismo contra o esquecimento. Diz-se num dos poemas mais marcantes do livro: “Datas todos os teus poemas / mas omites a hora e o local / exactos / como nos crimes”. Como nos crimes que comete nalguns poemas, roubando o tempo e antecipando-se a morte, com o leitor como cúmplice.
Inês Dias, Colóquio/Letras, nº 161/162, Julho-Dezembro de 2002, pp. 447-448 (sobre Ventilador, Espinho, Elefante Editores, 2000)

Ventilador, Espinho, Elefantes Editores, 2000