Creio que, com o tempo, merecemos que não haja governos [Borges]

Hugo Pinto Santos

Poesia

UMA ÁLEA DE LUZ

Uma poesia elíptica, sem pinta de sentimentalismo.

Hugo Pinto Santos

O Gato Visitador, de Carlos Alberto Machado, volta d’mar (2013)

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O gato que visita o artesão destes poemas dá título ao mais recente livro de poesia de Carlos Alberto Machado — o género não é uma precisão fútil, num autor com obra publicada no campo do teatro (como dramaturgo e ensaísta) e na ficção. Ao contrário do que seria presumível, perante o guião que se esboça em vários destes poemas, é ainda o felídeo visitador que perspectiva os trabalhos e padecimentos do artífice, esse avatar do sujeito escrevente.

O Gato Visitador organiza-se de acordo com elipses e jornadas (ambas figuram no título da generalidade dos poemas). Contudo, o teor elíptico desta escrita não se circunscreve a um aspecto formulaico ou de rotulagem, antes parece integrar o seu código genético. A elipse estende-se, então, dos poemas que mais explicitamente envergam essa condição até à globalidade da recolha: quer através da ausência de pontuação, quer por via da abdicação do uso de maiúsculas, em determinados casos. Nesse aspecto, como decerto noutros, talvez seja legítimo aproximar O Gato Visitador do modo como o poeta (quase não) anunciava o seu programa, no livro inaugural da sua poesia: Mundo de Aventuras (2000): “Chega agora a minha vez./ Nada a dizer/ somente/ duas ou três/ palavras/ que falam de uma luz/ pequenina”. A palavra “jornada” poderia fazer pensar no prodígio dos ciclos poéticos de João Miguel Fernandes Jorge (A Jornada de Cristóvão de Távora. Primeira, Segunda e Terceira Partes). No entanto, a História e a deriva do olhar, perscrutadoramente patentes nos poemas de João Miguel Fernandes Jorge, testemunhas atentas dos sulcos do devir humano, dão aqui lugar a uma espécie de miniatura histórica, e ao rumor discreto e selectivo de uma narrativa particular, que lateja nas fissuras permitidas pela memória: entre o que um poema chamará “ranhuras do texto” (p. 18) e o que outro designará por “dobras de tempo” (p. 8). Assim, a poesia de Carlos Alberto Machado mostra-se menos permeável ao impulso da aproximação histórica (com derivas ou não) do que ao influxo mais parcial e falível do sujeito, ainda que em distintas encarnações. O poeta que, em Realidade Inclinada (2003), escrevia “Não disse as palavras certas/ faltou-me o tom e o talento”, prefere, agora, uma via mais concisa mas de maior radicalidade, próxima do Sena de Em Creta com o Minotauro (“Em Creta, com o Minotauro,/ sem versos e sem vida,/ sem pátrias e sem espírito,/ sem nada, nem ninguém”) — “sem as palavras/ fórmulas mágicas” (p. 21).

Denegação do sortilégio do verbo, renúncia do poder do verso? Tudo isso, por certo, e a acção do tempo, a ruptura com o derrame, a recusa do excesso e da afirmação incontida. A brevidade, em suma. O que se coadunaria com a formação elíptica traçada pelo livro.

Num verso como “o homem é de novo menino e corre corre pelas ruas de basalto negro” (p.23), a adaptação do tema induz a ocorrência duplicada do verbo “correr”, a assinalar a repetição da actividade, mas, talvez, a discursividade incipiente da infância. E, todavia, também autoriza que se relembre um verso de Mito: seguido de Palavras gravadas na calçada (2001): “correrias tardes inteiras mesmo até à entrada da noite”. Poemas como estes criam o seu próprio universo: lexical, textual, mas também histórico. São versos ancorados em determinado tempo, mesmo quando não se deixam localizar facilmente; que criam o seu peculiar habitat, ainda que ele possua a arrebatadora estranheza de um “céu negro sugado de estrelas” (p. 27). E, quando cedem à cronologia, nunca o fazem em registo nostálgico — uma nota que a poesia de Carlos Alberto Machado não é conhecida por tocar —, mas com firme resolução. Como quem ausculta, sem infundir langor no que é inevitavelmente transacto e falido. A sua construção é coesa e sólida. São “trapos e sucatas” que se harmonizam com “jornais velhos” (idem), sem qualquer concessão lírica, porque, mesmo quando um menino “abre muito os olhos/ como se pudesse ver o futuro/ mas não vê” (idem), não é o sentimentalismo que manieta o verso, mas a justeza de timbre, a adequação vocabular e rítmica que se põem ao serviço de uma fidelidade à memória e/ou à recriação de tempos diversos.

Como já, de resto, acontecia em A Realidade Inclinada — “o que escrevo é impuro como os sangues menstruais e o mijo/ a destilarem amoníaco a federem como as fábricas da cuf/ na outra margem onde se escrevia em peles curtidas pelo silêncio”. Num como noutro caso, talvez importem menos a rudeza e a violência discursivas do que os efeitos que elas alcançam, a honesta densidade que certificam na poesia de Carlos Alberto Machado.

O finale de O Gato Visitador é, simultaneamente, um ritornello, já que esse último poema — “depois de o homem artesão se ter interrogado/ de mãos inúteis naquela álea de luz/ reveladora das matérias e dos seres” (p. 29) — é uma subtil releitura dos versos iniciais do livro — “O homem artesão de mãos inúteis está imobilizado/ uma álea de luz revela-lhe matérias e seres” (p. 7).

Mas o que é a inutilidade das mãos de um artesão que é agente do poema, mesmo se filtrado pelas suas operações verbais (como arquétipo, ou enquanto representante possível do sujeito poético)? A inoperância relativa do poema perante o “estancar de uma veia” (p. 11), ou diante da constatação de que “os celeiros continuam vazios” (p. 19). No entanto, a inutilidade do poema é, também ela, uma construção, uma consequência de dizer o mundo. O poema é, enfim, ainda a forma possível de assinalar a nossa sobrevivência até à última viagem.

(Jornal Público, Ípsilon, 4 de Outubro de 2013)