Creio que, com o tempo, merecemos que não haja governos [Borges]

H. G. Cancela

Não há nenhuma relação de coincidência entre a experiência do mundo como coisa imediata (a experiência da transformação, o reconhecimento dessa transformação) e a afirmação do mundo como coisa perspectivada pelo olhar da escrita. Não há relação de coincidência mesmo quando o olhar que se projecta sobre a escrita é assumidamente auto-biográfico. No mais objectivo enunciado autobiográfico introduz-se uma dimensão de encenação que transfigura a própria biografia: trata-se do espaço que permite fazer pública e partilhável a experiência mais íntima. A consciência desta dimensão de encenação poderá constituir uma linha de leitura do livro Registo Civil, Poesia Reunida 2000- 2006, de Carlos Alberto Machado.

Uma colectânea como esta permite um olhar sobre o trabalho do autor que nem mesmo a soma dos volumes dispersos poderia proporcionar. A homogeneização gráfica nivela a leitura, permitindo identificar afinidades e diferenças, pontos fortes e fragilidades.

Apesar do curto espaço cronológico que separa a publicação dos textos que aqui se reúnem, este é um livro que revela um percurso irregular, onde momentos muito fortes coexistem com outros menos conseguidos. O livro abre com a demarcação do território no qual a poesia do autor ganha força e singularidade: os textos do livro Mundo de Aventuras confrontam-nos, numa escrita segura, seca e objectiva, com a enunciação de memórias de infância. É um registo desencantado e ao mesmo tempo nostálgico nesse desencanto: sem ilusões, no entanto. É um olhar quase cruel que tenta traduzir a crueza de um mundo:

«(4)

Como é que se fala

das nódoas negras

feitas a pontapés

nas pernas da mãe?

E da raiva e do prazer?

E da vergonha de hoje?

É verdade que era uma revolta

contra o que não se compreende

sofrimento de menino pobre.

E depois?»

Nos momentos mais conseguidos, o autor transporta o mundo para dentro do texto, ou pelo menos aquilo que o quotidiano nos apresenta como mundo. A enunciação do eu, que nem sempre coincide com o do autor, potencia um olhar assumidamente perspectivado; mostra-nos o mundo não como ele é (ou como ele seria, ou como poderia ser), mas como ele se produz enquanto experiência. O perspectivismo do olhar supõe aqui a objectividade e a crueza da escrita. Nota-se que quando a secura da escrita ou do imaginário dá lugar a uma postura mais lírica há uma clara perda de força dos textos. Esta poesia torna-se mais frágil quando é mais lírica, mesmo se o lirismo é relutante e desconfiado de si próprio. Por exemplo:

«Há um segredo que não dizes

abres os braços como as aves

as mãos acariciando as imagens (…)»

ou ainda:

«Em que meandros se perde o teu corpo ao trilhar o caminho novo?

faço-te esta pergunta sem ela se poder agarrar ao rasto dos teus cabelos (…) »

Este registo de escrita prolonga-se neste livro mais do que seria desejável. Não é exactamente mau, é apenas banal (na banalidade cuidada da poesia mais consciente), e sobretudo choca directamente com os padrões de exigência definidos para e por outros textos do autor. Reencontramos os lugares-comuns do imaginário poético contemporâneo: veja-se a frequência com que ocorre vocabulário como palavra, poema, corpo, pele, desejo, etc. Igualmente questionável é a opção por um imaginário de contornos surrealista. Mais de que uma vez se detecta a presença de alguma coisa que não a voz do autor, antes os ecos de uma forma de fazer poesia que, quaisquer que sejam os seus méritos em outras vozes, surgem aqui deslocadas:

«Um campo de laranjas brilha ao sol por falta de adjectivos

a meio da tarde duas rodas de um tamanho nunca visto

rasgam sulcos em direcção aos quadris do cego (…)»

É possível valorizar este imaginário e esta noção de poesia. É possível que outras expectativas de leitura se revejam em textos como estes. Mas parece claro aquilo que de verdadeiramente singular encontramos neste livro se define segundo outros padrões literários. As objecções aqui enunciadas só fazem sentido porque estes registos colidem com alguns textos verdadeiramente excepcionais que encontramos no livro. Referimo-nos aos textos mais crus, onde o imaginário arrancado do quotidiano não surge transfigurado por nenhuma tentativa de estetização. É aquilo que, de um modo consciente, o autor identifica como a impureza da escrita:

«Não preciso que me digam que é impuro o que escrevo

vê-se pelas cicatrizes nos dedos da mão direita (…)»

A impureza da escrita é contaminação directa da impureza do olhar, da impureza do mundo. Impuros uns e outros não como o negativo de um estado ideal, mas como a delimitação que, no próprio movimento em que delimita, define e realiza. É este reconhecer dos limites do olhar, da escrita e do mundo que autoriza a encenação desse mesmo olhar, da memória e da escrita: uma encenação que permite apresentar o mais íntimo do eu como coisa pública.

Encontramos estas características exponencialmente realizadas no longo poema Mito. Trata-se de um texto que, sem pudor, se pode considerar extraordinário — um dos melhores poemas publicados em Portugal ao longo da última década. São quase quatrocentos longos versos que tentam reconstruir o mundo da infância, recolocando-se no mesmo imaginário do livro Mundo de Aventuras. Se neste se notava uma contenção que, contribuindo para o rigor formal, anestesiava em parte a força expressiva, em Mito encontramos uma escrita torrencial que, na sua imperfeição, corporiza a experiência que se propõe escrever:

«Estou há muito tempo para te contar esta história que talvez seja longa

não me olhes assim não me vires as costas um adiamento não é morte

primeiro preciso que me lembre de tudo ou de quase tudo

e que me lembre desse tudo ou quase tudo ao mesmo tempo (…)»

Devolvendo à poesia a sua força narrativa, este texto tem a capacidade de erguer um mundo com a materialidade de quem ergue uma construção: transpõe e recupera a memória, refaz, denuncia, assume, repudia, tudo isto com a força mitológica de quem desconfia dos seus próprios mitos. Cosmologia e profanação, estas vinte e uma páginas seriam só por si suficientes para justiçar uma escrita e uma vida.

H. G. Cancela, blogue http://contramundumcritica.blogspot.com/ [em 10 de Fevereiro de 2010, às 22,03 hs.], sobre Registo Civil, Lisboa, Assírio & Alvim, 2009 [mercado: 2010]