Creio que, com o tempo, merecemos que não haja governos [Borges]

Fátima Maldonado

Às vezes sentimental, mas quase sempre implacável

FEIOS, PORCOS E BONS

Mito, Lisboa, & etc, 2001

A POESIA FAZ-SE DE TUDO, de flores ou de fitas, mas também de humores, fluídos, crispações e lutos. Carlos Alberto Machado expõe neste monólogo a que chamou Mito a certeza da morte, a vida cada vez mais pobre, ternuras esfrangalhadas entre lamas e lonas. O grande perigo de textos destes, obituários, retalhos da infância cobrindo com desperdícios gorduras na laje, é a queda no tom lamuriento, a comiseração, peso morto à ilharga. Há muito pouco tempo passou na TV Feios, Porcos e Maus, um clássico de 1976 de Ettore Scola. Ao revê-lo apercebemo-nos, já refeitos do choque do início – a escatologia do filme era tão forte que não deixava naquele tempo margem para outras reflexões –, que se trata na verdade de uma descida ao Hades. O mesmo é dizer à arqueologia da alma, ao começo da tribo, ao reino da horda, onde ainda permanecemos, como demonstrou com eficácia a mais recente História mundial. Quando no filme as personagens enchem a boca de carne crua, ou dividem a murro a reforma da inválida, antecipam apenas o futuro que se tornou agora no nosso presente. Há similitudes entre o poema de Carlos Alberto Machado e as profecias que no filme garantem a natureza indelevelmente arcaica da raça. “Eu tinha seis anos quando ela saiu do pavilhão dos loucos na avenida do brasil/ e regressou a casa para ocupar o seu trono no reino dos moribundos (…) também não me lembro porque te magoava tanto as canelas com os meus chutos/ talvez fosse mais no inverno talvez fosse mais quando a incompreensão doía/ e eu não sabia o que isso era nem como se dizia e é sempre bom bater numa rainha/ íamos os três ao júlio de matos ou era apenas a minha mãe e a minha avó?/ talvez mais tarde fôssemos os três até à avenida do brasil e depois lanchássemos/ num café da esquina com a avenida de roma galões e queques ou bolos de arroz.”

“Palavras Gravadas na Calçada”, a segunda parte do livro, sofre de um excesso de sentimentalismo. E “Mito” não é um poema perfeito, tem frases, certos deslizes líricos evitáveis, num registo que se poderia ter mantido implacável mas soa na mesma. Canto à espécie a quem a vida não concede folgas, nem poupa magoas, nem limita quedas. Pavana aos sobreviventes que reincidem, feras na teimosia ao enfrentar a morte mais banal, a cama de hospício após o álcool, a virose da miséria que contunde. A complacência com a pouca sorte é só aparência, como os bonecos de pau que apanham na cabeça e se levantam sempre sem nenhuma mossa, estes vencidos da vida não pactuam senão com a desgraça própria e assinam de cruz com o sangue inquinado. “Quando nos fartávamos das gandaias íamos apanhar víboras para o monsanto.” É a Lisboa das hortas diminutas, onde os funcionários menores cultivavam couves, plantavam feijão, semeavam batatas. Os gritos das mulheres, o curto tempo dos homens, a quem o vinho ruim precipitava a queda, as botas remendadas a sovela, o tempo retraçado de armadilhas. O autor também é dramaturgo – ainda agora uma peça sua, Ficava Tão Bem Naquele Canto da Sala, inaugurou o Teatro Há.de.Ver –, e talvez este Mito também desse um bom monólogo teatral.

Fátima Maldonado, Expresso / Cartaz, 12 de Janeiro de 2002