Creio que, com o tempo, merecemos que não haja governos [Borges]

António Rodrigues [2]

ANTIEPOPEIA EM ÁFRICA

A estreia no romance do poeta e dramaturgo Carlos Alberto Machado: revoluções, cobardia e jovens macabros.

por António Rodrigues

 

Hipopótamos em Delagoa Bay | Carlos Alberto Machado | abysmo | *****

Quem foi que se enganou? Eis o que poderíamos perguntar, aproveitando o verso de José Mário Branco (“Houve aqui alguém que se enganou”) com que Hipopótamos em Delagoa Bay termina a narrativa da família Quaresma, que teve um antepassado traficante de marfim no tempo em que os austríacos tinham uma feitoria às portas da então Lourenço Marques e se instala em Moçambique no século XX, na altura em que Portugal procura, por fim, colonizar a sério o seu território africano do Índico.

Quem foi que se enganou? Aqueles que ousaram sonhar ou os outros, os sabedores de que a realidade é mais forte do que qualquer sonho? A julgar pela estreia no romance do poeta e dramaturgo Carlos Alberto Machado, o sonho só sonha o sonho e não a realidade, embora não nos impeça de tentar, mesmo se apenas nos condenamos a acordar ressacados e a ajustar contas com ironia (“O meu amigo Pedro sofre de Revolução crónica, patologia cuja medicação não é financiada pelo Serviço Nacional de Saúde republicano, laico e socialista”), mesmo sabendo que no fim da canção de Branco a espingarda se vira e aponta para a força que veio de longe para aqui chegar — “Era uma Revolução./ Um dia, foi-se. Dizem.”

Enganos, ilusões, desencantos e um grau considerável de fatalismo marcam a história de uma família instigada pelo imperativo categórico de prosperar e languidescer em África a par do império português. Por trás, as marcas de uma euforia revolucionária que, de tanto prometer, mais doeu na queda, o amargo de uma descolonização parecida com um lavar de mãos e de uma independência entretida a construir ódios e não um país.

O livro de Machado junta ao lado poético de uma narrativa de memórias e estados de espírito a necessidade de ser factual e rigoroso, quase em jeito de registo etnográfico, como se precisasse dessa base real para amarrar personagens com tendência ao ensimesmamento a um chão qualquer que as impeça de se esfumarem em espíritos. A maioria das personagens deste livro resiste a cumprir os seus desejos, reduzindo a boca ao silêncio, o amor às circunstâncias, a vida à disposição dos outros. Só Tomás, esse bebé-demónio que estrangulou a irmã gémea com o cordão umbilical antes de sair da barriga da mãe (“Eu senti todo o mal do mundo a nascer através de mim, como um castigo”, diz a progenitora sobre o filho), parece capaz de expressar sinceramente em acções aquilo que sente e deseja, mesmo que essas sejam fruto da malevolência, do sadismo, do prazer de matar.

Marcado desde o título por uma ideia de pertencer a outro tempo e espaço — os hipopótamos foram-se embora um dia, se calhar por causa da poluição; a Baía da Lagoa, Delagoa Bay em inglês, foi o primeiro nome da Baía de Maputo —, este romance acaba por ser também uma viagem, o longo retorno de Hermínio Quaresma (e da família por ele representada) ao seu paraíso de Inhaca (que não chegou a ver em jovem por causa do nevoeiro), mais do que uma ilha foneticamente parecida com a Ítaca de Odisseu. Segundo a tradição, Inhaca recebeu nome de um ancião de Maputo, Tsonga Nhaca, que acolheu Lourenço Marques e os navegadores portugueses em dificuldade. Lourenço Marques deu nome à que é hoje Maputo, Nhaca passou a ser nome de ilha onde ainda actualmente reinam simbolicamente os seus descendentes. Hermínio regressa, pois, aos primórdios da história europeia em Moçambique.

Porém, ao contrário da obra de Homero, o romance de Carlos Alberto Machado não é uma epopeia cheia de guerreiros e heróis, antes pelo contrário: aos heróis está reservada a descrição fria dos seus pedestais de barro e aos cobardes a compreensão profunda do seu humanismo.

“Uma vez, na Revolução, andei uma noite inteira às voltas de um quarteirão, a remoer palavras, a ensaiar um gesto e uma comoção. Não era fingimento, era apenas um abismo intransponível entre o querer e o ser. Cobardias fundas, só ao alcance de uns poucos.” É como se, dessa velha tradição literária portuguesa de colocar em paradoxal convivência a epopeia e a antiepopeia, Carlos Alberto Machado se ficasse tão-somente pela segunda, numa gesta humana antiépica que não se reconhece na didáctica histórica e a ataca e torpedeia com essa arma de questionamento maciço que é a ironia. Será que “a Revolução tem sentido de humor?”

(António Rodrigues, jornal Público, suplemento Ípsilon, página 25. Entrevista na página 18)