Creio que, com o tempo, merecemos que não haja governos [Borges]

António Guerreiro [2]

(…) uma revelação (o poeta Carlos Alberto Machado já tinha publicado antes, mas surge, neste livro [A Realidade Inclinada, Lisboa, Averno, 2003], com outra dimensão.

António Guerreiro, jornal Expresso/Actual, Sábado, 27 de Dezembro de 2003 (os 10 melhores do ano literário de 2003)

O livro de Carlos Alberto Machado, A Realidade Inclinada, fornece matéria bastante para pensarmos estas questões. Nele encontramos uma diversidade de registos, como se o poeta experimentasse vários modos de acesso à realidade, que se lhe apresenta «inclinada», não podendo ser apreendida senão de viés. Por isso, a questão da representação figurada é tematizada nalguns poemas. Não se trata de transfiguração, mas de um pensar em figuras, em imagens. O que dá origem a versos como este: «Um campo de laranjas brilha ao sol por falta de adjectivos» (pág. 13). O diálogo que se estabelece nalguns poemas com a poesia de Herberto Helder faz-nos perceber que esta poesia se move de maneira complexa, mas com grande segurança, entre dois extremos: entre o que é da ordem do imediato e que faz apelo a uma configuração poética da experiência, e o que parece vir de outro tempo que já não é o da história e parece constituir uma resistência ao mundo.
António guerreiro, Jornal Expresso 7 suplemento Actual, 2 de Agosto de 2003. pág. 28 (sobre A Realidade Inclinada, Lisboa, Averno, 2003)

A Realidade Inclinada, Averno, 2003