Creio que, com o tempo, merecemos que não haja governos [Borges]

António Cabrita [2]

O Carlos Alberto Machado começou como actor na vida artística, antes de se dedicar à antropologia e se ter revelado como poeta.

Como poeta, se o quiséssemos arrumar apressadamente, ainda que ele não mereça isso e a sua poesia se situe muito para lá das balizas geracionais, pertence à geração de 90. Esta geração, no essencial, tem como grupo de maior realce aquele que se estampou numa antologia com o nome provocatório de Poetas Sem Qualidade e onde se destacam criadores como Manuel de Freitas, José Miguel Silva, Rui Pires Cabral, e o Carlos Alberto, entre outros, e trouxe novidades em relação às linhas dominantes da geração de 80, mais ancorada no trabalho da metáfora e no poema sobre o poema, e mobilizou um novo paradigma, posto que até os seus modelos e influências eram diferentes – abandonou-se, por exemplo, o uso exclusivo da leitura da poesia francesa e passou a predominar a poesia inglesa, mais narrativa e descritiva, ou o movimento da chamada Poesia da Experiência, espanhola. Com estes poetas, a poesia voltou a aproximar-se do quotidiano, de um contacto mais directo com realidade, o que quer que esta seja, voltou o sujeito a estar no centro da cena em vez de ser apenas um fantasma habitado pela linguagem como acontecia na geração anterior, e o poema passou muitas vezes a ser o lugar de uma espécie de diálogo com o leitor.

Esta geração, no fundo veio consolidar o desvio que tinha sido feito na geração de 70, com Joaquim Manuel de Magalhães, João Miguel Fernandes Jorge, em relação à poesia anti-dicursiva da geração de 60 e do seu poeta astro, Herberto Hélder, e reforçar a influência crítica que passou a ter Joaquim Manuel Magalhães, um anglófono.

Todo este grupo da geração de 90 não fala a uma só voz como muitas vezes foi acusado pelos criadores das gerações anteriores, nas guerras que há sempre nos cenáculos literários, e manifesta riqueza e diversidade, e em meu entender um dos casos mais interessantes é mesmo o de Carlos Alberto Machado, pelo ecletismo e variedade que oferece. Aliás o Carlos Alberto tem a índole daquelas criaturas que irritam toda a gente porque não se prende a um género, não se deixa abater pelo jugo de um estilo, nem se confina nas balizas geracionais – ele escreve teatro e muito bem, escreve poesia e muito bem, escreve prosa e posso dizer que muito bem – é um chato que está em todos os lugares e isso torna-o alvo de suspeita para os mais preguiçosos e sobretudo para os mais invejosos.

É o que o torna diferente, talvez pelo facto da antropologia lhe ter trazido alguma inquirição permanente, e um poeta sem dúvidas é um poeta morto, e sobretudo pela circunstância de ser dramaturgo e de ter colhido com o teatro o peso de cada palavra, sendo um poeta de projecto e não um poeta de meros improvisos esporádicos. Não se veja aqui qualquer marca de racionalismo, o Carlos Alberto também tem um piloto automático que lhe desencadeia a escrita num jorro quando é preciso, mas o trabalho no teatro simplesmente ensinou-lhe que a grande liberdade e o rigor não são incompatíveis e se complementam.

O Carlos que é «um poeta impuro» no sentido de ser um intérprete da sujidade do real e do quotidiano, gosta de partir das coisas concretas, dos elementos e dos objectos, de fazer derivas a partir do vivido. Lendo-lhe a poesia vê-se que a infância parece ter nele um grande peso, tal como o amor e a morte e a escrita. Mas nele está tudo entrançado. Há duas epígrafes escolhidas por ele para um dos seus melhores livros, Na Casa de Passar as Tardes, e que o definem bem, a primeira é do poeta brasileiro Manoel de barros e diz assim: «Choveu na palavra onde eu estava», a segunda é do Joaquim Manuel Magalhães e diz: «A decifração da vida passa por um corpo». Ou seja, para ele não há poesia sem o testemunho do corpo, do lugar onde este se situa, e a palavra funde-se na carne. Como alias ele escreve num aforismo: «Subtraí mais uma palavra ao mundo. Uma só. Inominável pedaço de carne. E ainda sangra». Ou seja, para ele a poesia não bebe no livresco mas no diálogo com a vida, e só aquilo que gota a gota sangramos é que permite o resgate do verbo. Como ele escreve: «Vivemos num mundo exíguo, uma geografia de impossibilidade», e se as paredes desta clausura em que vivemos são feitas de silêncio é preciso então que o poeta abra as janelas, que conquiste as palavras, uma a uma, à mudez do mundo. Ou seja, para o Carlos Alberto Machado a poesia paga-se, não é um dom gratuito, e esta condição é que faz que seja um dos poucos poetas da sua geração em que o escreve não é diametralmente oposto do que é como pessoa. É um poeta com face.

Será então a poesia para ele um mero reflexo da sua conduta, um mero automatismo emocional, um novo realismo extraído do vivido? Isso seria enganador.

Houve um escritor importantíssimo no século XX, o Marcel Proust, que involuntariamente foi o culpado de uma das maiores falácias do século, de um cliché que se manteve durante décadas, a ideia de que haveria um tempo perdido para resgatar. Mesmo que houvesse esta utopia de um tempo perdido e a reencontrar, quando nós o encontrássemos já seríamos muito diferentes daquele que iniciou a sua busca e então já leríamos o nosso passado de uma forma que estaria contaminada por aquilo que somos no presente. Daí que essa busca seja vã. Ora o Carlos entendeu isto muito bem e daí que nele a memória, que parece um função essencial para aquilo que escreve, seja mais um mecanismo de gerar novos campos de virtualidade, de multiplicação dos possíveis, do que o território de uma inocência primeira e perdida.Vejamos por exemplo como ele lida com a memória, seja a sua ou de uma tradição literária e como apresenta ele o pretexto para a sua peça Hamlet & Ofelia:

«Conheço há muitos anos o Hamlet e a Ofélia. Estes ou outros. Sempre diferentes na sua fuga pelo mundo. Morrendo e ressuscitando sempre. A primeira vez que os encontrei foi em África. Bissau. Mercado a céu aberto do Bandim. Ele esgaravatava dos bolsos uma decrépita nota de franco para um quarto de uma Sagres escaldante. Ela à beira da estrada mijava sangue. E os seus olhos pediam a compaixão de uma morte breve. Mais tarde, Lisboa. Pensão Paraíso (“Banhos Quentes e Frios”). Ofereceram-me os seus corpos esvaziados em troca do que eu quisesse. Encontrei-os ainda no Kosovo. Klina. Brigada portuguesa. A guerra tirara um braço a Hamlet. A Ofélia a cor da pele. Nada tinham que servisse de moeda de troca. A última vez foi em Nova Iorque. Foram eles que comandaram a destruição das Twin Towers. Foi essa a história que me quiseram vender e que eu não comprei. Preferi ser eu a inventar-lhes uma outra vida. A troco de nada.»

O autor encontrou as suas personagens sucessivamente em Lisboa, no Kosovo, em Nova Iorque, onde se deram como os verdadeiros autores do atentado das Twin Towers. Mas nenhuma dessas histórias comprou o autor e então decide-lhe inventar outra. Estamos no domínio do puro jogo.

O mesmo faz o Carlos com a sua memória, com o vivido: é sempre um ponto de passagem para o seu direito de mentir, de construir campos de virtualidade e de possíveis.

O Carlos pega nas situações que vive e recria-as, só aproveitando delas as emoções, a energia desencadeada, mas os retratos são imaginados. É a tensão deste perpétuo jogo entre o verdadeiro e o virtual (e não entre o verdadeiro e o falso, o poeta não acredita nessa dicotomia negativa de um não contra sim, do ou ou, e prefere o jogo interminável da copulativa, do e… e…), é nessa tensão, dizemos, que se prodigaliza muito do melhor desta poesia de cunho aparentemente realista mas sabedora de que, como dizem os indianos, o realismo é uma das 50 modalidades da decoração.

Quem a ler verifica que nela se usa com muita parcimónia a pontuação. O Carlos não gosta de vírgulas nem de pontos finais ou de outros sinais, talvez também pela experiência que lhe veio do teatro, prática onde se constata que o sentido de uma frase depende muito da pontuação que cada intérprete dá às frases. Peguemos nesta pergunta: “Você acha que esse serve?”. Aparentemente, só significa o que significa, não tem volta. Se se disser: Você acha que esse serve? mete a tónica no objecto, cuja qualidade é ajuizada. Mas se disser: Você acha que esse serve? Está a pôr a tónica no sujeito, cujo entendimento é ajuizado pela escolha que fez, mas, enfim, dá-se ainda o benefício da dúvida, o tipo ao ter feito a escolha que fez enganou-se na escolha, mas noutras acerta… Certo?… Certo. Mas se acentuarmos o verbo: «Você acha que esse serve?», ao sublinhar o verbo indico o claro repúdio que me motiva aquela escolha e aí já não considero aquele sujeito digno de qualquer escolha… mas é uma cena de reprovação prévia, quer dizer, à partida daquela cabeça nunca sairá qualquer decisão que preste… E temos três sentidos para uma só frase. Julgo que a opção de minimizar a pontuação nos poemas lhe chega da vontade de transformar o poema numa estrutura aberta em que cada leitor acha os seus sentidos, o que é também uma forma de implicar o autor no poema. Este aspecto por exemplo da sua poesia diferencia-o dos outros poetas da sua geração que gostam mais de apresentar os poemas como micro-histórias cerradas e não abertas.

António Cabrita, sessão de apresentação de Carlos Alberto Machado, na AEMO-Associação de Escritores de Moçambique, Maputo, 10 de Setembro de 2010