Creio que, com o tempo, merecemos que não haja governos [Borges]

António Cabrita [1]

A ARTE DE ENXERTAR RIOS. uma leitura de Registo Civil, de Carlos Alberto Machado, por António Cabrita

«Ser campeão de pingue-pongue/ aos oitenta, eis um desígnio/, ainda que seja sabido:/ os hamsters são reféns do destino.», rabisquei à margem de um poema deste livro, sob influência. E sob influência apetece ficar, lido Registo Civil. Talvez seja o mais justo elogio a conceder a Carlos Alberto Machado.

Diga-se de antemão, uma das portas de entrada nesta poesia é o declarado anonimato a que nos remete o nome da recolha. Um registo civil é o lugar de todos os nomes, receptáculo de milhentas promessas, ou é, por apostasia, o mais fidedigno dos não-lugares. Cabe lembrar, paralelamente, que o Carlos tem no currículo uma dezena de peças de teatro, sendo neste género um dos nomes firmados da nova geração, ainda que a desatenção dada à edição de teatro, deixe na sombra este aspecto. Contudo, o facto de Carlos Alberto Machado ser um construtor de personagens e se entregar à «arte de enxertar rios» que é a dramaturgia, não é despiciendo para entender muito da estratégia desta poesia e da sua elocução.

O volume reúne os seguintes títulos: Mundo de Aventuras (2000), Ventilador (2000), Mito, seguido de Palavras Gravadas na Calçada (2001) A Realidade Inclinada (2003), Talismã (2004), Na Casa de Passar as Tardes (2003-2004), Uma Pedra sobre o Assunto (2003-2006), O Amor. Estudos Para uma Queda (2004), Tríptico em Negro-Azul (2005), Por isso Voltarei (2004-2006). Destes, os últimos cinco estavam inéditos em livro. A panorâmica permite divisar constantes estilísticas, processos e até fontes e firmar uma certeza: Carlos Alberto Machado é um dos nomes irrecusáveis na poesia portuguesa deste princípio do século.

Convém começar por esclarecer que, logo desde o primeiro livro Mundo de Aventuras, o poeta escreve por ciclos, persegue mais que o poema avulso uma partitura onde ecoe(m) uma(s) «voz(es)», num labor “orquestral” que organiza e monta dizeres vários, apesar do seu «efeito de imediatez», de uma suposta simplicidade, espontânea e declarativa. E que estas “narrativas” que cada ciclo monta apresentam por vezes uma forma disruptiva, descontínua, ilinear, ganhando mesmo no interior de cada poema uma lógica de colagem, o que não apenas diminui o papel do sujeito lírico e impõe às vezes uma voz relativamente neutra ou múltiplas vozes, como baralha as fronteiras entre a poesia e a prosa, a linguagem de todos os dias e a literária. Vejamos logo no texto de abertura do livro, Mundo de Aventuras, I: «Mais uma vez o regresso a casa./ Às escuras arrasto as mãos pelas paredes/ arranho o puído papel e lustroso/ e vê lá onde pões os pés meu estupor.(…)» Quem fala neste último verso, tão prosaico? Em quatro versos desdobram-se logo as vozes. E a marca coloquial, vemos depois ao analisar a totalidade do poema, era necessária à evocação que o poema encarna, não está lá por mero desleixo, ou porque o Carlos Alberto Machado não distinga entre bons e maus versos. Aliás, em primeiro lugar a coloquialidade reforça esse «efeito de imediatez» pretendido, depois a propulsão neste poeta tem uma motivação dramatúrgica, não se espere dele que «poetize a poesia», CAM aborda o poema como uma voz à procura do seu lugar e neste movimento está absolutamente do lado dos que acham que se é chamado à “boca de cena” um gago convém que a sintaxe do verso seja a do gago. É a sua ética.

Esmiucemos outro dos trompe-l’oeil desta poesia. Ingenuamente podemos aceitar que esta estratégia discursiva parte unicamente do vivido para nos revelar “sem filtros” a crónica biográfica de uma disforia, iluminando os vestígios da perda, no seu caso particular, o trânsito das emoções fugazes, as pequenas incidências intervalares de um homem comum, nascido em plena maré pós-simbólica: «(para o Ruy Belo) Não tenho meu poeta a tua praia da consolação/ nem o chichi das tuas senhoras no meu mar/ não tenho aliás nada de que me lembrar/ nem sequer a morte à bogart sob o meu olhar de marilyn/ nada é tão apaziguador como uma morte/ inventada às vezes a tua e a minha/ nas praias sem consolação a norte a sul/ a poente de um cabo raso/ nascente

O curioso enjabement com que o poeta deixe “pendurada” a palavra final dá-lhe uma força inusitada e relança a transfiguração que é todo o acto de nascimento. Portanto, à disforia – o poeta vê-se nascido depois de todas as utopias e dos campos do simbólico, como um detrito tardio – não se sucede a disfunção, o poeta não prescreve ou cede ao cinismo. Daí que, como avisava Deleuze, em Carlos Alberto Machado – apesar de à primeira vista estarmos diante de relatos de lembranças, viagens, de amores, lutos, sonhos e fantasmas – não se propague esse tique narcisista tão espalhado de confundir o eu lírico e o sujeito, e pelo contrário se afirme nele a literatura exactamente porque se descobre sob “as suas aparentes pessoas” a potência de um impessoal: «o teu corpo é um território sim (…) digo eu e digo e com fronteiras/ por isso a progressão deve ousar/ também não se pode parar não/ há tempo o que falta não é tempo/ não existe fim para esta expedição.» (pág. 193). Contudo, previna-se, esse postigo aberto para o incondicionado não almeja qualquer abandono da imanência, mas antes um suplemento da mesma, desse feliz anonimato que é a abertura ao mundo, ao outro, no afã de «recuperar os nossos sentidos» e de «aprender a ver mais, a ouvir mais, a sentir mais» (Susan Sontag).

Nesta mencionada expedição, a vida não se afigurou simples: desde a infância de menino pobre – sintetizada em dois versos terríveis, «A orquestra de ratos/ ensaia mais um nocturno», (Mundo de Aventuras, pág. 19) – que a realidade se apresenta ao poeta inclinada. Metáfora com que o poeta traduz a dificuldade da linguagem para traduzir a “trepidação” da realidade: «São três da madrugada/ o comboio galga quilómetros/ diz-se/ as metáforas são o que são/ e isso/ sente-se/ sobretudo nas curvas/ mais apertadas (…) felizmente/ tudo isto não passa/ de uma ilusão é uma metáfora/ demasiado arriscada para tão pouco/ e velho comboio/ ele que só gosta de deslizar/ como um cisne/ em largo e calmo/ verde lago/ metonímico.» (A Realidade Inclinada, pág. 125)» Mas assinale-se o paradoxo: para devolver ao comboio o sereno comedimento metonímico o poeta teve de o figurar em cisne. Metáfora que já não galopa, desliza – sobre o seu desvalorizado valor de metáfora. Com eficácia e “simplicidade” Carlos Alberto Machado produz um comentário irónico ao debate que tem incendiado gerações no seio da poesia portuguesa nos últimos 15 anos, pois o que é exterior ao conflito dialéctico entre metáfora e metonímia? A ventilação da vida, a sua energia transbordante, os encontros e as momentâneas coincidências do amor, mesmo que ameaçadas pela incompletude: «Desço em apneia pelo teu sonho e levo na boca o sabor do medo/ de quem não conhece ainda a cadência adequada à descoberta» (Por isso voltarei, pág. 338).

Um dos poemas de antologia desta colectânea começa assim: «A natureza em geral enfada-me com os seus fins de tarde melífluos/ como aqueles no atlântico em frente a convento de são francisco/ onde só falta a santinha sob os últimos raios de sol entre as nuvens/ por muito menos que isto já se escreveu muita poética e comadres/ do mesmo santo ofício crítico se exauriram em sangues literários» (Por isso voltarei, pág. 333). A escolha do adjectivo «melífluo» tão presente na retórica romântica associada à natureza coloca-nos logo diante do problema: o enfado chega ao poeta por via da impossibilidade de olhar a natureza sem lhe antepormos a memória de um comentário sobre, inviabilizando aí a sua experiência inaugural: «Estou desabituado da alegria talvez por defeito da memória do corpo» (Talismã, pág. 217)»

O que me lembra uma história contada por Joseph Campbell. Num congresso sobre religiões comparadas, um estudioso americano aproximou-se de um japonês e interpelou-o timidamente, ‘gostaria de falar consigo sobre o xintoísmo, sinto que ainda não compreendi a vossa ideologia…’, ao que o outro responde, depois de um breve silêncio: ‘nós não temos ideologia, nós apenas dançamos!’. É esta dança, o fundo da alegria, que CAM procura captar no fazer de cada poema a experiência de uma coisa no mundo, algo que participe e não tanto um comentário sobre, altaneiro, distante.

Corolariamente, apesar do combate tenaz a que vida civil propende, da reincidência das decepções, do peso das aporias, insaciáveis como sarna, da dislexia da memória, o poeta, ciente da energia da vida, da presença do mundo, resiste a fazer quer da identidade quer do intelecto uma cortina, e não desarma, reinventando todos os dias o seu registo civil: «Todos os dias me ocupo dos meus renascimentos/ obstinadas perdas de memória e amputações várias/ uma forma de anular o tempo como outra qualquer/ todos os dias retiro umas camadas e acrescento outras/ às palmas das mãos principalmente embora não descure/ toda a sorte de articulações e curvas e outras inconsequências/ passo a limpo gestos e olhares mortos antes do nascimento/ mais tarde registo tudo cuidadosamente em folhas já usadas/ acumuladas formam assim uma espécie de livro de instruções/ pessoal e pouco transmissível» (Uma pedra sobre o assunto, pág. 280). Eis a escrita como uma correcção na palma das linhas da vida, não exactamente como espelho fiel do vivido, como o sabia Corto Maltese.

Quero destacar dois livros inéditos nesta recolha que para além de se me afigurarem dois grandes momentos no panorama da poesia dos últimos anos, dão a medida da versatilidade do autor, precisamente: Na Casa de Passar as Tardes e Por isso Voltarei. O primeiro, a uma leitura apressada, passa por uma recolha de aforismos, breves aerólitos. Mas na verdade é um palimpsesto, onde camada a camada se assiste ao diálogo a três entre o corpo, a escrita e o daimon (a figura que inspira), aquele que aqui se denomina «o guardião». Desde o começo – «Um texto habitado por fantasmas. Reconhece-se pelo dióxido de ferro» – que vemos questionado o estatuto da verdade, da palavra, do real, e da experiência do corpo, nesta partitura plural onde as vozes e os níveis/estratos da referencialidade se entrecruzam. «Um corpo tem as palavras exactas. E não se diz», lê-se, e nesta escavação heurística, ancorada nos enigmas da escrita e da identidade enunciativa, problematiza-se mais do que se oferece respostas: «Um de nós disse: ‘Um cigarro para apagar a noite’. Um de nós disse: ‘Um cigarro para acender a noite.” Um de nós disse-o. Tão perto de o poder dizer.». É um texto brilhante (que nos remonta a Edmond Jàbes) de auscultação ao infinito da metáfora e que serve de rastilho ao posterior Tríptico em Negro-Azul (em chave paródica?), onde fala um gravador, morto aos cinquenta anos, «nos braços de marie aidelle».

De distintíssimo teor é o livro que fecha o volume, Por Isso Voltarei, um dos mais belos poemas de amor que li nos últimos anos, sem que no retorno a uma linguagem discursiva, que nos restitui o vasto mundo das referencialidades e sentidos partilhados, haja um momento de (auto-)complacência: esta é uma escrita tensa, duma dicção que parece querer contrariar a epígrafe – «esse pequeno lugar-comum da tua mão na minha» (Rui Nunes) – pois não se encontra nela um lugar-comum, tarefa árdua e difícil quando se fala de amor. A ilha do Pico, onde o poeta tem vivido nos últimos anos, é hipostasiada no corpo do amor («o meu sortilégio é apenas este/ ser corpo noutro corpo aqui/ eu ser ilha nele e ele em mim.», pág. 322) e o seu quotidiano é retratado como o imperativo que move um corpo para outro e sustenta a rede de olhares que norteiam o mundo: «Não sabemos pôr os olhos dos outros dentro/ de nós e com eles ver o que os outros vêem/ não dessa arte não sabemos e talvez seja/ melhor assim entretanto treinamos a outra/ arte a de inventarmos os outros e a nós/ com os nossos olhos míopes/ oleiros do mundo.», pág. 433».

Em suma, um dos livros absolutamente necessários deste ano de 2010.

Registo Civil. Poesia Reunida, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010