Creio que, com o tempo, merecemos que não haja governos [Borges]

REGISTO CIVIL. POESIA REUNIDA

Lisboa, Assírio & Alvim, 2010

 

 

 

 

Tríptico em negro-azul (a partir de Terrasse à Rome, de Pascal Quignard)

[dois]

Quando há pouco descia do monte aventino cruzei-me

com caravaggio que levava no rosto cores indecisas

talvez as das sombras tomadas das minhas sombras

talvez um pouco do luto que arrastei aventino abaixo

onde vi nos olhos do meu filho o desejo de me matar

também adivinhaste a minha morte assim marie aidelle

leste também nos traços do meu rosto este meu fim?

adivinhaste o horror de eu poder ser morto

por um filho incógnito que me odeia sem me conhecer?

 

o que lêem os outros no meu rosto marie?

contei-te muito da minha vida nas gravuras que fiz

fixei os nossos corpos anónimos nas cartas obscenas

vendidas na loja da via giulia com a tabuleta da cruz negra

mas agora perto do fim vejo o tanto que faltou dizer-te

não te disse como cicatrizaste as feridas abertas dentro de mim

não te disse como os meus olhos fechados viam os teus a olhar o meu rosto

nunca te disse a verdadeira cor do teu corpo

a arte é assim fica sempre alguma coisa por dizer

ou talvez não haja nada para dizer ou não se possa

seja como for não to direi agora de maneira alguma

a minha garganta está quase fechada já não respiro

já não tenho força para fazer o buril rasgar a placa de cobre

ou talvez já não tenha qualquer outra coisa ou tudo

não sei

estás à minha espera no terraço?