Creio que, com o tempo, merecemos que não haja governos [Borges]

Poesia

CAPA_paisagens» A PAISAGEM NUM DIA ALGO NUBLADO VISTA COM ÓCULOS DE SOL COM LENTES POLARIZADAS

com Nuno Morão (imagens)

Lisboa, não (edições), 2016

 

Ver as vistas num dia algo nublado.

Sem guia turístico e sem mapa.

Sem pontos cardeais.

Sem máquinas registadoras.

Sem o seu café de bairro urbano.

 

por_as_pernas_do_lado_da_cabeca 02» PÔR AS PERNAS DO LADO DA CABEÇA E PARTIR

Porto, ed. 50 Kg, 2015

Um corpo

rememorado

sob o escuro

das palavras

                    anchas

 Dádiva.

» ANTOLOGIA

CarlosA_Machado__CAPA2.inddRio de Janeiro, Oficina Raquel,  colecção Portugal 0, nº 7, coordenação de Luis Maffei, prefácio de Mauricio Salles Vasconcelos, 2013

Mais uma vez o regresso a casa.
Às escuras arrasto as mãos pelas paredes
arranho o puído papel e lustroso
e vê lá onde pões os pés meu estupor.
Quente demasiado quente o cheiro
e um tacteio mais num dorso conhecido
aguento o estômago a vazar sobre a enxerga.
Os ratos como sempre dominando tudo.

» O GATO VISITADOR

Nazaré, volta d’mar, 2013

O-GATO-VISITADOR[elipse, o homem]

o homem encosta-se ao frio da noite sob a luz de uma vela
a primeira do seu primeiro altar em noite de cinza sagrada
antes mesmo de saber dos lutos vindouros sob outras luzes
e disto há-de o homem falar muitas vezes antes de pensar
como dizê-lo na sua voz e nas vozes que o povoam
antes e depois das palavras esquecidas e das outras
de outra vez está o homem de pé
encostado a uma sombra
a estancar uma veia

» UMA VIAGEM ROMÂNTICA A MOSCOVO

Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2012

Capas azulcobalto.indd[primeira fotografia]
A primeira fotografia da tua vida foi aos seis anos
– parece que existiu uma outra quando eras bebé –
cujo destino era ficar na mesma moldura ao lado
daquela mulher que dias depois foste esperar
ao hospital com a tua avó e aí a história esperneia
mijaste-te pernas abaixo quando ela apareceu ali
com um rosto que não te pareceu ficar bem ao lado
do teu na mesma moldura e perguntaste à tua avó
‘vó quem é esta mulher para ter ao meu lado
a tua avó não sabia como dividir-se em afectos
e disse dá um beijinho à tua mãe dá-lhe a mão
e tu não obedeceste e saíste do hospital dos loucos
sem mãe para pôr ao pé de ti na mesma moldura
o resto da tua vida foi usada a queimar memórias
subtracção de enredos
tinhas apenas seis anos
e uma única fotografia
antes e depois da mãe
que nunca o saberia
deo gratias.

» CORPOS

Lajes do Pico, ed. autor/azulcobalto, 2011

Corpos_foto_Manuel_RibeiroÀs vezes precisamos de estar sós
sem desculpas sem agasalho sós
e olharmos demoradamente cada um
dos nossos passos duvidarmos de cada decisão
duvidarmos dos pequenos humanos que somos
mas principalmente dos grandes
porque sempre nos disseram que somos nós
a puxar as desgraças maiores sobre nós e afinal
talvez não seja bem assim como nos dizem
às vezes é bom ficarmos sós
com os nosso medos
grandes e pequenos
frente a frente
e calá-los
uma palavra só
às vezes basta
Fizemos uma travessia
por nós mesmos unidos
talvez sem o sabermos
e nem porque razão e voltamos
mais fortes ou mais fracos
mas sim prontos a tudo
começar de novo sempre
que uma razão velha precisar
de roupa nova mesmo
que para tal tenha
de morrer.

» POR ESO VOLVERÉ / POR ISSO VOLTAREI / C’EST POURQUOI JE REVIENDRAI 

com desenhos de Márcio Matos

dir. Nilo Palenzuela e Orlando Britto Jinorio, Projecto Horizontes Insulares, Governo das Canárias, programa Septénio, Canárias, 2010

DSC00822Guarda homem a avidez do desvendamento

aceita com bonomia a tua ignorância da luz

os seus traços filtrados na alvura deste corpo

mesmo que os teus olhos ceguem nada verás

da porosidade do mundo e da sua espessura

a tua palavra é e será sempre como as outras

não mais que uma carícia no dorso da noite

retém o teu corpo unido ao teu corpo gémeo

e sacia-te da fonte primeira.

» REGISTO CIVIL. POESIA REUNIDA

Lisboa, Assírio & Alvim, 2010

Registo_civil_jpegTríptico em negro-azul (a partir de Terrasse à Rome, de Pascal Quignard)

[dois]

Quando há pouco descia do monte aventino cruzei-me

com caravaggio que levava no rosto cores indecisas

talvez as das sombras tomadas das minhas sombras

talvez um pouco do luto que arrastei aventino abaixo

onde vi nos olhos do meu filho o desejo de me matar

também adivinhaste a minha morte assim marie aidelle

leste também nos traços do meu rosto este meu fim?

adivinhaste o horror de eu poder ser morto

por um filho incógnito que me odeia sem me conhecer?

 

o que lêem os outros no meu rosto marie?

contei-te muito da minha vida nas gravuras que fiz

fixei os nossos corpos anónimos nas cartas obscenas

vendidas na loja da via giulia com a tabuleta da cruz negra

mas agora perto do fim vejo o tanto que faltou dizer-te

não te disse como cicatrizaste as feridas abertas dentro de mim

não te disse como os meus olhos fechados viam os teus a olhar o meu rosto

nunca te disse a verdadeira cor do teu corpo

a arte é assim fica sempre alguma coisa por dizer

ou talvez não haja nada para dizer ou não se possa

seja como for não to direi agora de maneira alguma

a minha garganta está quase fechada já não respiro

já não tenho força para fazer o buril rasgar a placa de cobre

ou talvez já não tenha qualquer outra coisa ou tudo

não sei

estás à minha espera no terraço?

» TALISMÃ

Lisboa, Assírio & Alvim, 2004

TalismãChove muito e a roupa no estendal está toda molhada

aconchego-me no calor de uma hesitação empírica

depois vou até aos correios olhar estupidamente para os guichês

volto não menos estupidamente para casa sem nada para olhar

e escrevo as cartas atrasadas com os melhores cumprimentos

menos aquela em que te falaria da adequação dos corpos

solitários e da espera sem necessidade de feridas ou sofrimento

e da difícil aprendizagem nos dias chuvosos como o de hoje

seria uma carta sem intervalos nas palavras nem desculpas

seria uma carta breve sobre a arte de perceber o sim e o não

e seria lacrada com a marca dos meus lábios

mas agora o que fazer das nuvens que se rasgam em chuva?

» A REALIDADE INCLINADA

Lisboa, Averno, 2003

ARealidadeInclinadaHoje acordei a oferecer-te poemas

dos outros dos grandes espíritos

os das enormes cabeleiras divinas

incandescendo sob as luas negras

 

lá fora brilhavam os girassóis aturdidos

pela constelação de sóis metálicos

dispersos pelos quatro pontos cardeais

 

ao pequeno-almoço servi-te sopa de espinafres

e dois carapaus assados em óleo de palma

 

após o que

da parte de trás da realidade

um pouco inclinada

para a esquerda

surgiu

o gato

da vizinha

para os restos

de poemas. 

» MITO, SEGUIDO DE PALAVRAS GRAVADAS NA CALÇADA

Lisboa, & etc, 2001

Mito(…)

e agora lembro-me do homem que numa só noite lá em casa fez a minha mãe louca com um filho

e esse homem também se deve lembrar do ofício do meu sapateiro remendão

que uma vez à porta do tribunal lhe talhou no nariz uma conta por saldar

com aquela navalha afiada com que golpeava solas meias-solas e gáspeas

esse homem experimentou a navalha do ofício e é por isso que há no rosto dele uma falha

e é talvez por essa falha no rosto do meu pai que o troquei pelo outro homem

o homem que não admitia qualquer falha numa obra sua bota filha ou neto

(…)

» VENTILADOR

Espinho, Elefante Editores, 2000

VentiladorNão é que não pense no fim do mês

até já pus o íman no contador

angustia-me tanta energia invisível

penso no fim do mês e da vida

e não sei o que me dói mais

os olhos abertos da minha filha

esperam por saber como perguntar

o teu pai filha ainda espera respostas

ou como construir as perguntas certas

esvai-se a casa e eu com ela

preocupado com as respostas

com as sobras das perguntas

enredo as palavras e embalo-as.

» MUNDO DE AVENTURAS

Évora, atægina, 2000

MundoNa casa existem dois tronos

enraizados no soalho podre.

Neles se sentam as mulheres.

Já não se defendem do exército

dos subterrâneos roedores

esta pequena realeza sem poder

sucumbirá à insanável tristeza.

A casa é um navio abandonado

há muitos séculos no fundo do mar

a peçonha tomou o chão e as paredes.

As mulheres emitem sons desarticulados.

Têm o valor de uma sopa de couves e feijões.

Comerás dela cada trago como um suplício.

Não as nomearás enterrarás os seus nomes

até o tempo apagar deste chão a sua lembrança.

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