Creio que, com o tempo, merecemos que não haja governos [Borges]

Ficção

» HIPOPÓTAMOS EM DELAGOA BAY

romance. com fotografias de Jorge Aguiar Oliveira

Lisboa, abysmo, 2013

Hipopotamos_em_delagoa_bay_Carlos-Alberto-Machado(…) Conheci‑o estava eu encostado à esquina da padaria, ainda não eram sete da matina, enquanto salivava por um bocado de pão quente à saída da noite. Os compinchas que me tinham arrastado pela cidade estavam já a arrochar, os cus a enregelar no chão da calçada. Eu sobrevivia a custo e sem esperanças que não fossem as derivadas do trigo fermentado. Veio o Pedro e olhou‑me com uns olhos que não podiam ser dele «És comunista?», foda‑se, ia‑me mijando, ele punha os dedos de ambas as mãos em garfo e tentava repuxar para trás o cabelo cor‑de‑fogo e repetia, com aqueles olhos que não podiam ser dele «És comunista?», «Eh, pá…» e ele de repente abraçou‑se a mim a chorar, com uns arranques tão grandes que me mijei mesmo, de medo e de mágoa. Chorou. Perguntou‑me o nome e foi‑se.  Comi dez pães de enfiada. Os meus companheiros lá ficaram a remoer outros fermentos e eu fui‑me a quentes.

Nunca serenou de todo, o Pedro, de quem me tornei amigo. Ainda agora, passados tantos anos, anda ele pelas ruas, de cabelo em chamas e olhos emprestados. Abraçado sempre a uma soberba colecção de jornais velhos. Ganhou um porte aristocrático e uma fala eloquente. Tem dias de acalmia. Mas quando revira o que lhe rói a alma, destempera‑se de verdade. Entra no café do bairro, abre a braguilha num gesto teatral e mostra o sexo sujo às velhas – e lá vão pelo ar torradas e copos de galão, entre risos e gritos e desmaios. Pedro parece um  guerrilheiro saído de um filme do Gombrowicz. O meu amigo Pedro sofre de Revolução crónica, patologia cuja medicação não é financiada pelo Serviço Nacional de Saúde republicano,
laico e socialista.

«Eh pá, és comunista?»

(…)

» ESTÓRIAS AÇORIANAS

contos. Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2012

Capa Carlos-Alberto-MachadoA COISA

A marcha decidida, embora lenta, do homenzinho, aliás, um homenzarrão com uns bons cento e cinquenta quilos de gordura sem formosura, mais o seu sorriso largo, só podiam
prenunciar uma desgraça que vinha ao meu encontro. Meu dito, meu feito, ainda mal se esboroava o pensamento e já o dito enchia a cadeira à minha frente e sibilava um dá-me licença?
As que ele precisasse, pensei, e disse com certeza. Com que então à espera? continuou a sibilar. Pensei que as cobras não eram assim gordas mas o sujeito sibilava como elas. O que é que ele queria que eu estivesse ali a fazer? A apreciar os magalas americanos da base militar ali defronte? A deslumbrar-me com o caótico parque de estacionamento? A ouvir nenhum
avião passar? Numa sala de espera de um aeroporto, espera--se. Tentei também sibilar-lhe: há quatro horas – mas a coisa saiu-me mais em jeito de assobiadela marialva. A coisa gorda
continuava por ali a olhar-me com um sorriso a tracejar-lhe os lábios finos. A todo o momento esperava ver sair-lhe a língua bífida. Mas não, era mais do estilo alforreca – embora sibilasse.
(…)