Creio que, com o tempo, merecemos que não haja governos [Borges]

PUTA DE FILOSOFIA

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Regras, respeitinho pelas regras. Há horas que esta frase matraqueia no seu cérebro como uma música peganhenta que se agarra aos neurónios um dia inteiro e só desaparece ao adormecer. «Regras, respeitinho pelas regras, ouviu, mister Søren?», repetiu-lhe o chefe Jimenez já ele transpunha a porta do gabinete e entrava na sala dos detectives que fingiam não estar a gozar o prato, a gozar aquele raspanete que deixava Søren completamente fora de si. «Puta que vos pariu a todos», trovejou de cima do seu metro e noventa e tal, enquanto se mandava a toda a brida para fora da sala e do edifício da Brigada Judicial. Atrás de si ficou a ressoar um coro de gargalhadas mofosas.

Søren Constantius é bom rapaz. Não gosta que o chateiem. Ele também não gosta de chatear, a não ser uns bandidolas. «Já vou com mais de dez anos de detective nos costados e vem agora o chefe falar-me de regras? O que é que aquele idiota quer? A tipa abriu-me um lasco na cara com a garra e eu preguei-lhe um estalo nas ventas. Como é que eu ia adivinhar que a loiraça era mulher do deputado? Foda-se!»

Foi bom aluno na Academia de Polícia, depois das passagens abortadas pelos cursos de literatura e de filosofia na universidade. Agora, divide o seu dia a dia entre a actividade profissional de detective da Brigada Judicial, tachos, livros e mulheres, por esta ordem de importância, em tempo gasto, entenda-se. «Caga nisso», diz de si para si. De maneira que estalada, regras e mofaria são rapidamente esquecidas.

Chegado a casa, um cozinhado fenomenal de mexilhões frescos ajuda-o a reorganizar o espírito e os sentimentos. Um branco seco, de terras arenosas, para equilibrar paladares.

Telefona-lhe Batista, colega e amigo.

– Hei, companheiro, que tal vires ouvir um novo disco de tango que chegou hoje, e fumar um Cohiba, cosecha 2003?

– Eh, pá, agradeço-te, mas agora estou mais virado aí para umas leituras, Santo Agostinho, Confissões, sabes?

– Vai-te… ‘tá bem, gostos não se discutem.

– Até se discutem, mas – Batista interrompe-o.

– Vai-te mesmo! Hasta!

Inté.

Acabou por ir parar aos poetas trágicos gregos. Meditar um pouco sobre o direito natural e o direito divino, o poder e o direito à revolta.

A mexilhoada hoje não lhe saiu tão bem como era costume. Terá sido da salsa? A mais?

Adormece tarde, clareia já a noite que foi de chumbo.

(…)

(de Puta de Filosofia)