Creio que, com o tempo, merecemos que não haja governos [Borges]

O MAR DE LUDOVICO

Um deslize. Desprezível. Coisa breve no desfiar do tempo. Depois, as consequências. Para toda a vida. Recorda: tinha dez anos, uma infância feliz. Menino-prodígio, génio do cálculo matemático e das línguas. Donatella, a sua tia centenária, estava em visita primaveril. Família junta no jardim da casa. Vico, era esse o seu petit nom, não brincava. Os olhos repousados nas voltas dos desenhos da toalha bordada da mesa de chá. Vico!, berrou-lhe ao ouvido direito, com voz rasgada e estridente, a tia Donatella, o menininho não quer mais torradinhas? O menino que adejava entre palrar de adultos, rendas, doces, sumos e torradinhas, estremeceu todo por dentro. Como não conhecia o significado de uma sensação tão forte, não reagiu. A tia Donatella continuava a berrar-lhe ao ouvido, enquanto brandia uma torradinha entre os dedos que escorriam manteiga. E o tímpano de Vico rebentou, espichou sangue e depois desmaiou entre as pernas fedorentas da tia.

Três dias permaneceu Vico imerso em coma profundo. Quando voltou, surdo do ouvido direito, embasbacou a família com as suas primeiras palavras: quero ficar só para o resto da minha vida. A família, ainda estonteada com tão bizarro acidente, anuiu. Então, a partir desse deslize linguístico, começou a viver sozinho. Vigiado à distância de um sussurro, primeiro; depois, quase adulto, tornou consciente o direito a estar só, sem qualquer tipo de presença de familiar ou de amigo. Se a família não gostou, nunca ninguém lho disse. A excepção poderia ter vindo da tia Donatella, não tivesse ela morrido de obstupefacção, segundos depois do grito que rebentou o tímpano direito do sobrinho.

(…)

[de O Mar de Ludovico]