Creio que, com o tempo, merecemos que não haja governos [Borges]

AVESSO

Um grande camarim colectivo de um teatro. A acção decorre durante os preparativos e a última representação de um espectáculo.

               Prólogo das Personagens

Sofia    O encenador não percebe como é que uma peça pode ter personagens sem história. “Já     havia personagens sem autor e o que faltava agora era haver também personagens sem história!” – isto é o que ele diz, está claro! “É preciso saber o que cada personagem pensa, o que faz!” Está bem. O problema é que o autor pirou-se, não quis saber. Na verdade, nós, as personagens, também nos estamos borrifando para o autor!

Coro   Abaixo o autor!

Olga    Não confiamos no gajo, para dizer a verdade, não confiamos em nenhum desses   vendidos         que nos desprezam e nos ignoram. São uns fingidores. Isto tudo para dizer que resolvemos formar uma cooperativa e entrar em auto-gestão. Redigimos um Manifesto (prepara-se para ler), que começa…

Clarice            … Ó Olga, agora não, pá!

Olga    OK. Então… vou só dizer os pontos mais importantes. 1: Só entramos em cena quando     acharmos bem; 2: Não queremos conflitos entre nós; 3: Todas diferentes, todas iguais; 4:   Não nos lixem.

Ivo      Eh pá, essa última não é do Manifesto.

Olga    Pois não, desculpem lá, era uma coisa que eu tinha aqui anotada da última reunião com o encenador… (pausa) Pronto. Então, 5, aliás, 4: A voz a quem        a trabalha! Isto quer dizer, vamos nós fazer a nossa própria apresentação, a nossa história…

Jonas  … Está bem, Olga, já sabemos, começa lá, caraças.

Olga    Está bem. Então, chamo-me Olga e…

Rui      …E nada, desculpa, tínhamos combinado que era por ordem alfabética,      portanto, a       Clarice é             a primeira.

Olga    Desculpa. Clarice, começa lá tu.

Clarice            Eu?!

Coro   Quem é que querias que fosse?

Clarice            Que merda, sou sempre eu a começar. Olha, para já, vou dizer o que me apetecer sobre     mim, se não bater certo com o que vou dizer na peça tanto se me dá, não me ralo nadinha, aliás, ninguém tem nada a ver com isso, é um problema entre mim e o autor.

Coro   Apoiado, apoiado!

Clarice            Calem-se lá, porra! Quem é que inventou a merda do coro?

Ivo      Foram os gregos, minha ignorante.

Jonas  Por falar em gregos: já conhecem aquela do Machel e das pirâmides?

Clarice            Não… conta lá.

Coro   Não! Não contes!

Jonas  Vão à merda!

Coro   Continua lá, minha estúpida.

Clarice            Querem ver estes?! Palavra de honra que um destes dias ainda meto na peça uma anedota             qualquer. (pausa) Bom, chamo-me Clarice, já se sabe, e os meus paizinhos dizem que       nasci em Lisboa…

Coro   Nascemos todas, minha taralhouca!

Clarice            Vão chamar taralhouca à puta que vos pariu.

Coro   Nascemos só dum cabrão dum pai, tontinha.

Clarice            Desisto.

Coro   Não podes, não podes.

Clarice            A gente depois fala… Bom, vamos lá outra vez. Inventei que uma pessoa lá de fora, um   tipo do teatro, está com sida, só para mostrar na peça que ando transtornada, estou a sofrer à brava com os últimos dias da minha velhota, sinto-me só e abandonada e já nem sei se quero continuar no teatro; ando distraída, muito distraída…

Coro   … Pronto, já chega, a próxima.

Irene   Parece que sou eu.

Coro   É, é a tua vez, velhorra.

Irene   Sou velhorra, sou… Não tenho nada a dizer. Faço o que o estúpido do autor escreveu e     pronto.

Coro   Não chega, Irene.

Irene   Não chega?! (pausa) Tenho saudades de Paris, de um teatro que nunca mais fiz – olha,     rimou! – gosto de vestidos e de cantar…

Coro   Isso não é uma personagem, não és tu.

Irene   Ah não?! Então, não sei, esqueci-me… estou velha e a morte aflige-me…

Coro   Mas na peça não morres, não te lembras? Não tens mais nada a dizer?

Irene   Não, acho que não…, gosto muito dos meus meninos, de todos, com um fraquinho           especial pela Ludmila e pelo Jonas…

Coro   Está bem. Ivo, agora és tu.

Ivo      Sim. Sou um líder, ou pelo menos gostava de ser. As coisas confundem-se na minha         cabeça porque tenho a mania da organização. Dizem que tenho pouco sentido de humor, é que fico a pensar nos contextos, na oportunidade, em todas as relações e…

Coro   … E o melhor é estares calado se não ficamos aqui a noite toda. Jonas, é a tua vez.

Jonas  Passo.

Coro   Vai à merda.

Jonas  Obrigadinho. Dizem que falo de mais mas não é verdade. Gosto é de confundir tudo: o     teatro, a vida, eu, os outros… Gosto muito de rir, gosto muito de viver mas ainda não aprendi bem. E gosto muito da Ludmila, mas também não sei como gostar dela…

Ludmila…Querem ver este?!

Coro   Aproveita a deixa, é a tua vez.

Ludmila          Uma personagem tem que ouvir cada uma! (pausa) Como é que eu sou? O que é que        faço? A gente não pode pensar… A verdade é que sou um bocado parecida com o Jonas, mas a culpa não é minha. Gosto muito de me apaixonar e é isso que me acontece na peça, estou apaixonada e não me apetece estar na peça… Gosto muito de cantar, tenho uma voz bonita. E tenho muito medo de morrer.

Coro   Outra! Aqui ninguém morre! Camarada Olga, é a tua vez.

Olga  Vão chamar camarada à…

Coro   … Cuidadinho com a língua, podem estar aqui crianças.

Olga    E só agora é que se lembraram? Vou ser rápida. Tenho medo da vida e do futuro, amo      muito a minha filha, gosto muito que me obedeçam mas choro que nem uma madalena com as coisas mais lamechas. E quero que o autor se lixe.

Coro   Boa! Menino Rui.

Rui      Menino… Sou um atleta desta merda de arte. O bagaço dilui-me as ideias e os        pensamentos. Gozo com vocês como o caraças. Tenho que ter ideias feitas. Puras. Duras. Gostava de mudar as vossas vidas no palco. Se me chateiam muito ainda chego a santo. Já chega? Tenho que ir concentrar-me.

Coro   Vai, vai.

Sofia    Só falto eu, não é? Pois é. (pausa) Pensei muito no que ia dizer e agora não sai nada.         (pausa) O melhor é começar a peça, estou a ver. Eh pá, não sei o que fazer da vida. Agora imagino que tenho uma grande paixão. Chega? (ninguém responde) Quem cala consente. Até já.

(de Avesso)